Custos ocultos: um tênis de R$ 200 pode chegar a R$ 283

por Marco Antonio Portugal
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Um par de tênis de R$ 200 parece ter um preço bastante objetivo: escolhe-se o modelo, passa-se o cartão e a compra termina ali. Mas os custos invisíveis mudam essa conta quando, para chegar à loja, é preciso dirigir 10 quilômetros até um shopping e depois percorrer os mesmos 10 quilômetros de volta.

Em uma simulação para São Paulo, esse tênis de R$ 200 pode representar um gasto econômico de aproximadamente R$ 283,30. A diferença, de R$ 83,30, equivale a quase 42% do preço do próprio produto. Entram nessa conta combustível, estacionamento, manutenção do automóvel, IPVA, licenciamento, seguro, depreciação do automóvel e um café de R$ 15 durante a visita.

Isso não significa, porém, que R$ 83,30 necessariamente sairão da conta bancária naquele dia. Parte das despesas já foi paga ou será paga em outro momento. É justamente aí que está a diferença entre o custo percebido e o custo econômico de usar um automóvel.

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Os custos começam antes mesmo de entrar no shopping

Para tornar a simulação verificável, o ponto de partida dos custos estão em alguns preços observáveis em setembro de 2026.

Na cidade de São Paulo, a gasolina comum custava em média cerca de R$ 6,32 por litro no levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis referente à semana de 13 a 19 de setembro. O valor varia consideravelmente entre postos, mas serve como referência atual para a cidade.

O estacionamento também pesa. No Shopping Eldorado, usado apenas como referência concreta de um shopping paulistano, a tarifa informada para automóveis é de R$ 31 por até duas horas. No Shopping Ibirapuera, por exemplo, a primeira hora custa R$ 30 e cada hora adicional acrescenta R$ 5. Portanto, R$ 31 não representa todos os shoppings, mas está dentro da ordem de grandeza encontrada na cidade. No Shopping Morumbi, essa conta fica em R$ 32 por duas horas.

Há ainda despesas que não aparecem no painel do automóvel durante o trajeto. Em São Paulo, automóveis de passeio pagam em 2026 IPVA correspondente a 4% do valor venal do veículo. A taxa anual de licenciamento é de R$ 174,08.

Esses valores não aumentam porque alguém resolveu ir ao shopping em uma terça-feira. Mas fazem parte do custo de manter aquele veículo disponível para que a viagem possa ocorrer.

Como os custos invisíveis do carro foram calculados

Para evitar a falsa precisão de escolher um modelo específico, a simulação adota um automóvel compacto a gasolina avaliado em R$ 100 mil. Assume-se uma utilização de 15 mil quilômetros por ano e consumo urbano médio de 12 km por litro.

A quilometragem anual não foi escolhida ao acaso. O levantamento Menor Custo de Uso 2026, da revista Quatro Rodas, também trabalha com 15 mil quilômetros anuais e incorpora despesas como combustível, seguro, revisão e IPVA para estimar quanto custa manter diferentes automóveis no país.

Para completar a simulação, foram adotadas três premissas que variam muito de motorista para motorista: R$ 3.500 por ano de seguro, R$ 2.400 por ano para manutenção e pneus e depreciação anual de 10%, equivalente a R$ 10 mil para o veículo hipotético de R$ 100 mil.

Esses três números são premissas de custos, não médias oficiais. Seguro depende de idade, endereço, perfil do condutor, modelo e cobertura. Manutenção muda conforme idade e estado do veículo. A depreciação pode ser muito maior ou menor conforme modelo, ano e mercado de usados.

Ainda assim, considerar esses custos é economicamente consistente. Nos Estados Unidos, a análise anual Your Driving Costs, da AAA, calcula o custo dos veículos reunindo combustível, manutenção e reparos, pneus, impostos e taxas, depreciação e custos financeiros. Em sua edição de setembro de 2026, a entidade voltou a apontar a depreciação como a maior categoria isolada de custos de propriedade entre os veículos novos analisados.

Aplicando as premissas aos 20 quilômetros da ida e volta, os custos da compra ficam assim:

CustosValor atribuído à viagem
TênisR$ 200,00
GasolinaR$ 10,53
Manutenção e pneusR$ 3,20
IPVAR$ 5,33
LicenciamentoR$ 0,23
SeguroR$ 4,67
DepreciaçãoR$ 13,33
Estacionamento por até 2 horasR$ 31,00
CaféR$ 15,00
Custo total da compraR$ 283,30

O automóvel, portanto, acrescenta cerca de R$ 37,30 à viagem antes mesmo do estacionamento e do café.

Combustível é uma das menores parcelas da viagem

A conta produz um resultado contraintuitivo. Embora abastecer seja a despesa que o motorista mais associa diretamente ao uso do automóvel, os 20 quilômetros consumiriam aproximadamente 1,67 litro de gasolina no veículo hipotético. Ao preço de R$ 6,32 por litro, isso representa apenas R$ 10,53.

O estacionamento custa quase três vezes isso.

A depreciação rateada pelos quilômetros rodados acrescenta outros R$ 13,33. IPVA, seguro, licenciamento e manutenção respondem por aproximadamente R$ 13,43 adicionais.

Somadas todas as despesas atribuíveis ao veículo, chega-se a R$ 1,86 por quilômetro nesta simulação. Os 20 quilômetros custariam, assim, R$ 37,30.

É importante não transformar esse número em uma suposta tarifa universal. Um automóvel de R$ 60 mil teria IPVA, seguro e depreciação diferentes. Um carro que percorre 30 mil quilômetros por ano diluiria alguns custos fixos em muito mais quilômetros. Um veículo que permanece quase sempre parado apresentaria o fenômeno inverso: os mesmos custos com impostos e seguro seriam distribuídos por uma quilometragem pequena.

É por isso que duas pessoas dirigindo exatamente a mesma distância podem ter custos reais bastante diferentes.

Custos que realmente saem da carteira naquele dia

Existe outra maneira, igualmente legítima, de olhar para a compra: perguntar apenas quanto dinheiro adicional será desembolsado porque o motorista decidiu ir ao shopping.

Nesse caso, custos com IPVA, licenciamento e seguro não aparecem. Eles seriam pagos mesmo se o carro permanecesse na garagem naquele dia. Grande parte da depreciação também ocorre simplesmente pela passagem do tempo.

Considerando somente os custos mais imediatamente associados ao passeio, a conta seria:

R$ 200 do tênis + R$ 10,53 de combustível + R$ 31 de estacionamento + R$ 15 do café = R$ 256,53.

O passeio acrescentaria R$ 56,53, ou 28,3%, ao preço do produto.

Se o café for retirado da história, os custos caem para aproximadamente R$ 241,53. Ainda assim, comprar presencialmente um produto anunciado por R$ 200 exigiria gastar cerca de 21% a mais naquele deslocamento.

Já pelo método de custo econômico completo (sem o café), tênis, automóvel e estacionamento somariam R$ 268,30, cerca de 34% acima do preço da mercadoria.

As duas contas respondem a perguntas diferentes. A primeira ajuda a decidir: “quanto vou gastar a mais se for agora?”. A segunda responde: “quanto custa manter e utilizar a estrutura que torna essa viagem possível?”.

IPVA e seguro devem mesmo entrar no preço do tênis?

Esse é o ponto mais delicado da simulação.

Imagine que o IPVA de um carro de R$ 100 mil seja de R$ 4 mil. Ir ou não ao shopping não altera esse imposto em um centavo. Sob a ótica do custo marginal, portanto, seria incorreto afirmar que a viagem criou uma despesa de R$ 5,33 em IPVA.

Mas, sob a ótica do custo total de propriedade, o automóvel só existe à disposição do motorista porque alguém arca com aqueles R$ 4 mil anuais. Distribuir esse valor pela utilização do veículo permite enxergar quanto cada deslocamento absorve da estrutura necessária para mantê-lo.

O mesmo raciocínio vale para seguro e licenciamento.

A depreciação fica em uma zona intermediária. Parte da perda de valor decorre da idade do veículo, independentemente da quilometragem. Outra parte é influenciada justamente por uso, desgaste e quilômetros acumulados. A AAA destaca que a depreciação continua sendo um componente central do custo completo de propriedade de um automóvel.

Por isso, dizer simplesmente que “o tênis custou R$ 283” seria exagerado sem explicar a metodologia. Mais preciso é dizer que uma compra de R$ 200 mobilizou aproximadamente R$ 83 em outros custos quando se atribui ao passeio sua parcela do custo total do automóvel e das despesas da visita ao shopping.

A conta de R$ 283 ainda não inclui tudo

A simulação também deixa alguns componentes de fora.

O primeiro é o tempo. Dependendo do trânsito, percorrer 20 quilômetros em São Paulo, estacionar, caminhar até a loja, experimentar o produto e voltar para casa pode consumir uma parcela significativa do dia. Colocar um preço nesse tempo exigiria adotar critérios de renda ou de valor da hora de lazer, o que tornaria a conta muito mais subjetiva.

Também não foi considerado eventual financiamento do veículo. Quem ainda paga juros para possuir o carro enfrenta um custo financeiro que não aparece nesta simulação. Estudos internacionais de custo total de propriedade costumam incluí-lo. A análise da AAA, por exemplo, contabiliza despesas financeiras além de combustível, impostos, manutenção e depreciação.

Ficaram de fora ainda lavagem, garagem residencial, eventuais pedágios, multas, valet, reparos imprevistos e o risco financeiro de colisões, furtos e roubos. Por outro lado, não se deve simplesmente acrescentar todos esses itens a qualquer deslocamento: alguns são custos fixos, outros são eventuais e vários podem não existir para determinado motorista.

Da mesma forma, uma viagem ao shopping pode cumprir várias finalidades. Se a pessoa compra o tênis, vai ao supermercado, almoça e resolve outra pendência na mesma saída, atribuir todo o custo do deslocamento ao calçado deixaria de fazer sentido.

Um produto de R$ 200 pode mobilizar mais de R$ 80 em despesas ao redor

No caixa da loja, o tênis desta simulação continua custando R$ 200. Esse é o seu preço comercial.

Mas a decisão de comprá-lo presencialmente pode produzir três números bastante diferentes. São R$ 200 pelo produto isoladamente, aproximadamente R$ 256,53 de desembolso associado ao passeio, considerando combustível, estacionamento e café, e cerca de R$ 283,30 de custo econômico completo, quando se acrescenta a parcela correspondente ao uso e à propriedade do automóvel.

A diferença de R$ 83,30 não prova que ir de carro ao shopping seja uma decisão ruim, nem que comprar pela internet seja necessariamente mais barato. Frete, prazos, devoluções, conveniência e a possibilidade de experimentar o produto também têm valor.

A simulação revela outra coisa: muitos gastos cotidianos parecem menores porque parte de seu custo está escondida em pagamentos feitos em momentos diferentes. O combustível aparece no posto. O estacionamento aparece na saída do shopping. O IPVA chega no início do ano. O seguro é pago mensalmente ou em parcelas. A manutenção aparece meses depois. A depreciação só se torna evidente quando chega a hora de vender o carro.

Separados, esses valores raramente são associados ao par de tênis levado para casa. Reunidos, mostram que o preço estampado na etiqueta é apenas uma parte do custo de uma compra.

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