Uma revista científica brasileira pode pertencer a uma universidade, ser administrada por uma associação de pesquisadores, utilizar serviços de uma empresa privada e ter seus artigos publicados na SciELO. Essas funções não precisam estar concentradas em uma única organização. Compreender essa estrutura ajuda a explicar como as revistas científicas brasileiras operam e por que seu modelo editorial difere daquele associado a grandes grupos internacionais, como Elsevier, Springer Nature e Wiley.
Um estudo publicado em 2025 na revista Transinformação, com dados coletados em 2024, identificou 139 portais de periódicos vinculados a 132 instituições públicas de ensino superior. Juntos, esses portais reuniam 2.990 títulos ativos. O levantamento não representa um censo de todas as revistas brasileiras, mas oferece uma dimensão da atividade editorial desenvolvida diretamente por instituições acadêmicas.
Essa configuração revela uma característica importante da comunicação científica: publicar uma pesquisa envolve diferentes responsabilidades, desde a seleção dos artigos e a avaliação por pares até a produção editorial, a preservação digital, a distribuição e o financiamento. O modo como essas atividades são organizadas influencia custos, autonomia, visibilidade internacional e continuidade das publicações.
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Quem está por trás de uma revista científica brasileira?
No Brasil, muitas revistas são mantidas por universidades públicas e privadas, programas de pós-graduação, sociedades científicas, associações profissionais e instituições de pesquisa.
Essas organizações podem assumir simultaneamente as funções de mantenedora, responsável editorial e publicadora. Também podem compartilhar determinadas atividades com prestadores externos, sem transferir a responsabilidade pelas decisões científicas.
A Revista de Administração Contemporânea (RAC) e a Brazilian Administration Review (BAR), por exemplo, são publicadas pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD). A entidade mantém os periódicos, que possuem equipes editoriais próprias e oferecem acesso aberto aos artigos.
Outro arranjo aparece na RAUSP Management Journal. A revista é publicada pela britânica Emerald Publishing em nome da Universidade de São Paulo. Segundo a política de transparência do periódico, a USP nomeia e administra sua equipe editorial, enquanto a editora internacional participa da operação da publicação. A decisão científica final cabe à editoria-chefe.
Há ainda empresas brasileiras especializadas em serviços editoriais. A Editora Cubo, por exemplo, oferece assistência editorial, revisão, diagramação, marcação XML, sistemas de submissão e infraestrutura para revistas. Isso não significa, necessariamente, que seja proprietária dos periódicos atendidos.
Portanto, convém distinguir cinco funções: quem mantém a revista, quem decide o conteúdo científico, quem executa a produção editorial, quem disponibiliza os artigos e quem financia essas atividades. Em alguns periódicos, todas pertencem à mesma organização; em outros, são distribuídas entre parceiros.
A infraestrutura brasileira e o papel da SciELO
O desenvolvimento das revistas científicas brasileiras está associado à construção de infraestrutura própria de comunicação acadêmica.
Criada em 1997 e lançada em 1998, a Scientific Electronic Library Online (SciELO) nasceu de uma iniciativa ligada à FAPESP e à BIREME. Posteriormente, transformou-se em uma rede internacional de coleções nacionais de periódicos.
A SciELO não funciona simplesmente como uma editora comercial. Seu modelo envolve critérios de seleção e permanência, publicação digital, preservação, interoperabilidade de dados, disseminação e acompanhamento do desempenho dos periódicos. A responsabilidade institucional e científica dos títulos, entretanto, permanece distribuída entre seus respectivos publicadores.
Outro componente importante é o Open Journal Systems (OJS), software de código aberto desenvolvido pelo Public Knowledge Project. No Brasil, sua disseminação foi impulsionada pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), inicialmente sob a denominação Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER).
O levantamento publicado na Transinformação constatou que o OJS estava presente, diretamente ou nas revistas integrantes das coleções, em todos os 139 portais analisados.
Essa infraestrutura favorece a autonomia institucional e reduz a necessidade de contratar um sistema comercial completo para iniciar uma revista. Também permite atender comunidades científicas especializadas e divulgar pesquisas de interesse nacional ou regional.
A disponibilidade de uma plataforma, contudo, não resolve automaticamente as necessidades de editoração. Um periódico depende de revisores, editores, profissionais de comunicação, gestão de metadados, preservação digital, integridade científica e estratégias para alcançar leitores.
A mesma pesquisa encontrou informações públicas sobre serviços de apoio editorial em apenas 37 dos 139 portais examinados. O resultado não prova que os demais não ofereçam serviços, mas evidencia uma lacuna de transparência ou de estrutura que merece investigação.
Quem paga pela publicação científica?
A publicação de artigos exige recursos independentemente de o leitor pagar pelo acesso. Os custos podem incluir gestão de submissões, tratamento editorial, ferramentas tecnológicas, registro de identificadores, indexação, preservação e profissionais especializados. Parte do trabalho científico, particularmente a avaliação por pares, também pode ser realizada sem remuneração direta.
Os modelos de financiamento organizam esses custos de maneiras distintas.
No sistema tradicional de assinaturas, universidades e bibliotecas contratam acesso a publicações cujos conteúdos ficam parcial ou totalmente restritos aos assinantes.
No acesso aberto financiado por taxas de processamento de artigos, conhecidas pela sigla APC, a publicação pode ser custeada pelo autor, por seu financiador ou por sua instituição. Os artigos ficam disponíveis aos leitores, mas o custo de publicação permanece.
As revistas híbridas combinam os dois sistemas: mantêm conteúdo por assinatura e permitem que determinados artigos sejam publicados em acesso aberto mediante condições específicas.
Existe também o acesso aberto diamante, no qual nem leitores nem autores pagam taxas pela publicação ou pelo acesso. A operação é financiada por universidades, sociedades científicas, fundações, agências públicas ou outros mecanismos de apoio institucional.
Esse último modelo tem presença histórica importante na América Latina, particularmente nas iniciativas SciELO, Redalyc e AmeliCA. Sua vantagem é a redução das barreiras econômicas enfrentadas pelos autores. Seu principal desafio é assegurar financiamento recorrente e capacidade profissional suficiente para manter a qualidade editorial.
Nenhum desses mecanismos elimina os custos da comunicação científica. O que muda é quem os assume, como são distribuídos e quais compromissos são necessários para sustentar as publicações.
Como funcionam os grandes grupos editoriais internacionais?
Empresas como Elsevier, Springer Nature e Wiley operam portfólios que abrangem periódicos, livros, plataformas digitais e diferentes serviços de comunicação científica. Dependendo da empresa, também oferecem soluções de análise bibliométrica, descoberta de literatura e apoio a instituições de pesquisa.
A concentração de serviços permite padronizar processos, desenvolver tecnologias compartilhadas, reunir equipes especializadas e promover internacionalmente os periódicos.
Para universidades e sociedades científicas, contratos com essas empresas podem representar acesso a estruturas profissionais de produção, distribuição e gestão editorial que seriam difíceis de manter individualmente.
Em contrapartida, os contratos podem envolver custos elevados, dependência tecnológica, limitações à autonomia operacional ou menor controle sobre determinados serviços. O grau dessas restrições varia conforme o acordo firmado.
O modelo internacional, porém, não é exclusivamente empresarial. Sociedades científicas também publicam seus próprios periódicos, enquanto editoras universitárias e organizações sem fins lucrativos mantêm estruturas editoriais relevantes em diferentes países.
A Alemanha oferece um exemplo de negociação coletiva. O consórcio DEAL estabelece acordos com grandes editoras para combinar leitura de conteúdo científico e publicação em acesso aberto por pesquisadores vinculados às instituições participantes. O contrato com a Elsevier anunciado em 2023 possui vigência até o final de 2028.
Paralelamente, a Europa vem fortalecendo estruturas não comerciais. Criado em 2025, o European Diamond Capacity Hub reúne iniciativas voltadas à capacitação, à infraestrutura compartilhada e à sustentabilidade das publicações em acesso aberto diamante.
Essas experiências mostram que a comunicação científica internacional não segue uma única direção. Há modelos comerciais consolidados, acordos coletivos de financiamento e iniciativas institucionais destinadas a ampliar a capacidade editorial das próprias comunidades acadêmicas.
Os acordos da CAPES e a reorganização do financiamento
A mudança nos modelos de publicação também aparece na política brasileira de acesso à literatura científica internacional.
Desde 2024, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) ampliou acordos que combinam acesso a conteúdos científicos com cobertura de taxas de publicação em acesso aberto.
Em dezembro de 2025, a agência anunciou novos contratos com Elsevier, Springer Nature e Association for Computing Machinery (ACM). O acordo com a Elsevier passou a contemplar 434 instituições brasileiras e 1.619 periódicos híbridos elegíveis. Na Springer Nature, a previsão inicial era de 6 mil artigos anuais em acesso aberto, distribuídos por 1.738 títulos elegíveis.
Em 28 de outubro de 2026, a CAPES anunciou uma ampliação da parceria com a Springer Nature, incluindo mais de 70 periódicos da coleção Nature nas possibilidades de publicação, sem aumento do valor do contrato originalmente firmado.
Esses instrumentos são conhecidos como acordos de leitura e publicação, ou read and publish. Em vez de depender exclusivamente de assinaturas para leitura, parte da contratação também cobre a publicação aberta de artigos aceitos nos periódicos participantes.
Para pesquisadores elegíveis, isso reduz a necessidade de obter recursos próprios para determinadas APCs. A aceitação dos trabalhos, contudo, continua sujeita à avaliação editorial e aos requisitos de cada periódico. A cobertura também depende das condições contratuais, da instituição e do tipo de artigo.
O financiamento público contempla diferentes modalidades. Segundo a CAPES, o Portal de Periódicos executou aproximadamente R$ 323,45 milhões em 2025, destinados ao acesso a coleções científicas, bases de dados e outros recursos contratados. Esse montante não corresponde exclusivamente a taxas de publicação.
O Brasil também mantém iniciativas de apoio às revistas nacionais. Em 2024, uma chamada conjunta da CAPES e do CNPq destinou R$ 6 milhões à editoração e publicação de periódicos científicos brasileiros.
Os valores não são diretamente comparáveis, pois dizem respeito a anos, objetivos e instrumentos diferentes. Ainda assim, permitem identificar duas dimensões distintas da política científica: a aquisição de acesso e serviços de publicação em escala internacional e o financiamento direto da capacidade editorial instalada no país.
Avaliar seus resultados exige indicadores próprios, considerando a quantidade de artigos publicados, o público beneficiado, o alcance das pesquisas, os custos totais e os efeitos sobre a sustentabilidade do sistema científico.
As vantagens e limitações dos diferentes modelos
O modelo institucional brasileiro apresenta características favoráveis à diversidade científica. Revistas administradas por universidades e associações podem desenvolver linhas editoriais próximas às necessidades de comunidades específicas, inclusive em áreas pouco atendidas pelos grandes portfólios internacionais.
A operação sem finalidade comercial também pode facilitar políticas de acesso aberto sem cobrança dos autores. Entretanto, a sustentabilidade depende da disponibilidade de equipes, orçamento e capacidade de gestão, que variam significativamente entre instituições.
O modelo comercial internacional dispõe de escala para investimentos em plataformas, serviços editoriais e disseminação. Marcas consolidadas e redes internacionais podem contribuir para a circulação de artigos, embora a reputação científica dependa igualmente da qualidade e das práticas de cada periódico.
Sua principal limitação econômica está relacionada aos custos contratuais e à capacidade de negociação das instituições que financiam o acesso e a publicação.
Já os modelos cooperativos procuram combinar autonomia acadêmica com compartilhamento de infraestrutura. Podem reduzir a duplicação de esforços e ampliar o acesso a serviços especializados, mas precisam resolver questões de coordenação, financiamento contínuo e definição de responsabilidades.
Há ainda um elemento que atravessa todas essas estruturas: o comportamento dos pesquisadores.
A escolha de onde publicar costuma considerar adequação temática, reconhecimento na comunidade científica, indexação, circulação internacional, qualidade da avaliação editorial, prazos e critérios institucionais de avaliação.
A localização geográfica da editora, isoladamente, não determina a qualidade de uma publicação. Revistas brasileiras podem ter ampla circulação internacional, assim como títulos publicados por grandes grupos podem atender comunidades científicas muito especializadas.
Da mesma forma, estar indexado na SciELO, Scopus ou Web of Science não significa pertencer à instituição que administra a base. Indexação, responsabilidade editorial e propriedade são relações diferentes.
Um sistema internacional em transformação
A crescente diversidade dos modelos de acesso aberto está alterando a maneira como universidades, governos, editores e pesquisadores se relacionam.
Os acordos de leitura e publicação oferecem mecanismos para ampliar rapidamente a disponibilidade de artigos. As iniciativas de acesso aberto diamante buscam consolidar estruturas que não dependam de cobranças individuais aos autores. Empresas editoriais, por sua vez, continuam desenvolvendo serviços e plataformas adaptados às novas formas de circulação do conhecimento.
A experiência brasileira demonstra que um sistema editorial descentralizado pode alcançar grande abrangência, mas enfrenta desafios de profissionalização, visibilidade, coordenação e sustentabilidade.
A comparação internacional sugere que essas dimensões não precisam ser tratadas como alternativas excludentes. Uma revista pode manter sua governança científica institucional, utilizar serviços editoriais especializados, integrar plataformas cooperativas e buscar circulação internacional.
O ponto central está na capacidade de combinar qualidade científica, infraestrutura confiável, financiamento sustentável e condições de acesso equitativas.
Para compreender a evolução da publicação científica brasileira, será importante acompanhar não apenas quantos artigos chegam às revistas internacionais, mas também como se transformam as instituições, os serviços e as redes responsáveis pelos periódicos produzidos no país.
A comunicação científica, afinal, envolve muito mais do que o ato de publicar um artigo. Ela constitui uma infraestrutura de produção, validação e circulação do conhecimento, cuja organização influencia tanto as oportunidades dos pesquisadores quanto o acesso da sociedade aos resultados da ciência.

