O excesso de mortalidade no calor extremo pode ser praticamente invisível nas estatísticas que procuram diretamente a palavra “calor” nas causas de morte. Foi exatamente esse contraste que apareceu em uma análise de uma onda de calor ocorrida no Brasil em fevereiro de 2024: enquanto nenhum óbito recebeu o código correspondente à exposição excessiva ao calor natural, o número total de mortes ficou acima do esperado.
Entre Paraná, Rio Grande do Sul e Roraima, foram observados 4.558 óbitos na janela analisada, contra aproximadamente 4.341 esperados. A diferença equivale a cerca de 217 mortes em excesso e a um risco relativo de 1,077 — aproximadamente 7,7% acima do esperado.
Isso não significa que existam 217 certidões nas quais seja possível apontar o calor como causa individual da morte. Trata-se de uma estimativa epidemiológica: o estudo identificou uma elevação estatisticamente mensurável da mortalidade durante um episódio extremo previamente definido por critérios meteorológicos.
A pesquisa, de autoria de Fábio Luiz Vieira, foi publicada em 2026 na Revista Técnico-Científica CEJAM. O artigo utiliza dados oficiais brasileiros e tem como ponto de partida uma onda de calor reconhecida pelo Instituto Nacional de Meteorologia, o INMET, entre 7 e 12 de fevereiro de 2024.
Há uma dificuldade básica para medir o impacto sanitário das ondas de calor: uma pessoa pode morrer durante um episódio extremo sem que o calor seja registrado como causa básica do óbito.
Isso ocorre porque a declaração de óbito costuma registrar a doença ou condição que levou à morte. Uma pessoa com doença cardiovascular, respiratória, renal ou outra condição crônica pode ter sua situação agravada por temperaturas muito elevadas, mas o fator ambiental que precipitou essa deterioração nem sempre aparece no registro.
No episódio estudado, o código X30 da Classificação Internacional de Doenças — utilizado para exposição ao calor natural excessivo — apareceu zero vezes. Se o impacto da onda de calor fosse medido apenas pelas mortes oficialmente codificadas dessa maneira, portanto, o resultado seria nenhum óbito associado ao calor.
A comparação com a mortalidade total conta uma história diferente.
É justamente essa diferença que torna o estudo relevante para a vigilância em saúde. O número de mortes explicitamente atribuídas ao calor e o número de mortes que ocorrem além do esperado durante um evento extremo são medidas distintas.
Para evitar que uma simples coincidência temporal fosse interpretada como efeito do calor, o trabalho adotou um desenho epidemiológico conhecido como caso-cruzado com estratificação temporal.
Em termos simples, o método compara a mortalidade durante os dias associados ao evento com outros dias comparáveis dentro do mesmo período. O modelo considera fatores como unidade federativa, mês e dia da semana, reduzindo a influência de padrões sazonais e de características que mudam pouco ao longo de algumas semanas.
Os pesquisadores utilizaram microdados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde entre 2014 e 2024. A exposição não foi definida depois de observar os óbitos: a janela partiu de uma nota técnica do INMET, produzida independentemente dos resultados que seriam encontrados.
A onda propriamente dita havia sido delimitada entre 7 e 12 de fevereiro. Na análise de mortalidade, entretanto, foram considerados também alguns dias posteriores, chegando até 15 de fevereiro. A razão é fisiológica: os efeitos do estresse térmico não precisam ocorrer exatamente no mesmo dia da exposição. O estudo pré-especificou defasagens de até três dias.
Também foram utilizados controles negativos temporais e espaciais — comparações nas quais, caso o modelo estivesse captando apenas algum ruído geral dos dados, seria esperado encontrar resultados semelhantes. Esses controles não mostraram o mesmo excesso de mortalidade observado na área e no período de interesse.
Um dos resultados mais informativos não foi apenas o tamanho do excesso, mas a maneira como ele se distribuiu.
Se o impacto do episódio estivesse fortemente concentrado em doenças cardiovasculares, por exemplo, seria esperado que esse grupo explicasse a maior parte das mortes adicionais. Não foi o que ocorreu.
As doenças circulatórias responderam pela maior parcela individual, com cerca de 21% do excesso. Mas também apareceram aumentos em causas respiratórias, endócrinas, externas, infecciosas, renais e em outros capítulos da Classificação Internacional de Doenças. Nenhum grupo, isoladamente, respondeu pela maior parte do resultado.
Depois da correção estatística utilizada para lidar com as várias comparações feitas simultaneamente, nenhuma causa específica permaneceu significativa sozinha.
Isso muda a forma de interpretar o fenômeno. Em vez de agir necessariamente sobre uma única doença, o calor pode funcionar como um estressor agudo capaz de agravar diferentes vulnerabilidades fisiológicas.
Os autores consideram esse padrão compatível com uma hipótese de fragilidade: pessoas que já possuem menor reserva fisiológica podem ser menos capazes de compensar o estresse térmico. O mecanismo, porém, não foi medido diretamente pelo estudo e deve ser entendido como uma interpretação plausível dos resultados, não como uma demonstração causal individual.
Existe outra explicação possível para aumentos de mortalidade durante eventos extremos. O calor poderia simplesmente antecipar em poucos dias mortes que ocorreriam de qualquer maneira pouco depois — fenômeno conhecido em epidemiologia como deslocamento de mortalidade.
Se esse fosse o principal mecanismo, seria esperado observar uma queda compensatória no número de mortes após o episódio.
O estudo não encontrou esse déficit. Nas semanas seguintes, a mortalidade não caiu abaixo do padrão de comparação; em algumas análises, permaneceu inclusive acima dele. Isso enfraquece a hipótese de que todo o excesso observado tenha representado apenas uma antecipação de mortes iminentes.
Os autores são cuidadosos, contudo, ao não atribuir automaticamente ao calor as mortes ocorridas depois da janela principal. O resultado posterior serve sobretudo para avaliar a hipótese de compensação, não para ampliar artificialmente a contagem atribuída ao evento.
A pesquisa também encontrou uma diferença importante entre mapas meteorológicos e mapas de risco para a saúde.
Os municípios associados às maiores temperaturas registradas não coincidiram necessariamente com os locais onde o sinal de mortalidade foi mais consistente. Entre as áreas que apresentaram excesso mais robusto estavam a Região Metropolitana de Porto Alegre e o Norte Central Paranaense.
Isso não significa que a delimitação meteorológica estivesse errada. O INMET descreve um fenômeno atmosférico a partir de suas estações e critérios técnicos. A vigilância em saúde responde a outra pergunta: onde aquele fenômeno produziu consequências mensuráveis sobre a população?
São mapas relacionados, mas não idênticos.
Características urbanas, temperaturas noturnas, condições de moradia, prevalência de doenças, uso de medicamentos e capacidade de adaptação podem alterar a vulnerabilidade das populações. Parte dessas explicações é discutida pelos autores, mas não foi diretamente testada no estudo.
Os 7,7% encontrados não devem ser interpretados como uma estimativa universal do impacto das ondas de calor no Brasil.
A pesquisa examinou um evento específico, com determinada intensidade, duração, época do ano e distribuição geográfica. O próprio artigo alerta que não é possível aplicar automaticamente o risco relativo encontrado a outros episódios de calor extremo.
A exposição também foi classificada de forma ecológica e binária: estados estavam ou não incluídos no evento definido pelo INMET. Isso é muito diferente de medir a temperatura efetivamente experimentada por cada indivíduo ou estimar uma curva contínua entre temperatura e risco de morte.
Roraima teve número relativamente pequeno de óbitos, reduzindo a precisão das estimativas estaduais. Informações de escolaridade também estavam ausentes em parte dos registros.
Essas limitações não anulam o resultado principal, mas definem seu alcance: o trabalho identifica um excesso agregado de mortalidade temporalmente associado a um episódio oficial de calor extremo e mostra que esse sinal persiste diante de diferentes testes de controle. Ele não identifica quais mortes individuais foram provocadas pelo calor.
Talvez a consequência mais prática do trabalho esteja justamente no contraste entre zero mortes oficialmente registradas por calor e aproximadamente 217 mortes em excesso estimadas epidemiologicamente.
Os sistemas de mortalidade já registram informações como data e município do óbito. Bases meteorológicas registram quando e onde ocorreram temperaturas extremas. A integração rotineira dessas duas fontes permitiria acompanhar com maior precisão os efeitos sanitários dos episódios de calor, sem depender exclusivamente do preenchimento de uma causa ambiental na declaração de óbito.
Isso pode ajudar sistemas de alerta e planos de contingência a olhar não apenas para a temperatura registrada em uma estação, mas também para onde vivem populações mais vulneráveis, como os serviços de saúde estão preparados e quais áreas apresentam sinais de impacto.
A discussão ganha atualidade em 2026. A Organização Meteorológica Mundial informa que o atual El Niño deve atingir intensidade muito forte e permanecer ativo nos próximos meses. A previsão não significa que um episódio semelhante ao de fevereiro de 2024 ocorrerá necessariamente nos mesmos lugares do Brasil, mas reforça o valor de transformar informação climática em capacidade de prevenção e resposta.
A principal mensagem do estudo, portanto, não é que toda morte ocorrida durante uma onda de calor deva ser atribuída à temperatura. É quase o oposto: contar apenas as mortes que trazem o calor explicitamente registrado também pode produzir uma imagem incompleta do problema.
Entre esses dois extremos está o trabalho da epidemiologia — comparar o observado com o esperado, testar explicações alternativas e medir aquilo que os registros individuais, sozinhos, não conseguem mostrar.

(autor correspondente)
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