O workshop “Caminhar para transformar: soluções integradas de mobilidade ativa e gestão de resíduos urbanos” integrou a programação do Circuito Urbano 2025, promovido pela UN-Habitat em parceria com o Ministério das Cidades. O encontro propôs uma reflexão sobre as relações entre mobilidade a pé, gestão de resíduos e sustentabilidade urbana, reconhecendo a calçada como um espaço vital, multifuncional e muitas vezes negligenciado na agenda de planejamento das cidades brasileiras.
A sessão, realizada em formato virtual, teve caráter participativo e provocativo. Em vez de uma exposição convencional, tratou-se de uma roda de diálogo, reunindo especialistas, gestores e pesquisadores para discutir como as práticas de caminhar e de cuidar do lixo podem convergir em soluções urbanas mais justas e inovadoras. A condução do encontro, feita por Marco Antonio Portugal, apresentou a gênese da proposta e introduziu os principais desafios que conectam mobilidade e resíduos, abrindo caminho para as falas de Cristine Diniz Santiago (IPEA), Juliana Sabino (especialista em acessibilidade) e Ricardo Corrêa (urbanista da TCUBS/Polo Planejamentos).
Mobilidade a pé e o problema invisível do lixo nas calçadas
Em sua fala de abertura, Marco Portugal destacou que a mobilidade a pé é o denominador comum de todos os modais urbanos. Mesmo quem se desloca de carro, transporte público ou bicicleta, em algum momento realiza parte de seu trajeto a pé. Essa constatação reforça a centralidade das calçadas como elemento de infraestrutura urbana essencial, mas ainda subvalorizado.
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A provocação que orientou o debate partiu de uma questão aparentemente simples: o que o lixo tem a ver com a mobilidade a pé? A partir dessa pergunta, o palestrante introduziu um olhar inovador sobre o tema, tratando o acúmulo de resíduos nas calçadas não apenas como um problema estético ou de limpeza urbana, mas como um fator estrutural que compromete a caminhabilidade, agrava riscos de acidentes, contamina o ambiente e reduz a qualidade da experiência urbana.
Segundo ele, a deposição de sacos de lixo em calçadas estreitas, a coleta manual e irregular, o mobiliário urbano mal posicionado e a ausência de padronização comprometem a circulação segura dos pedestres. Esse cenário é agravado por condições típicas das metrópoles brasileiras: calçadas esburacadas, falta de manutenção e ocupação desordenada do espaço público.
Ao situar o lixo como obstáculo físico e simbólico, Marco Portugal enfatizou que a transformação urbana exige um olhar integrado. O tema do lixo nas calçadas deve ser tratado como um ponto de partida para discutir inovação na gestão de resíduos, design urbano adequado, padronização de mobiliário e mecanização da coleta, envolvendo tanto o poder público quanto a comunidade local. A proposta é, portanto, de uma agenda positiva, que una mobilidade e sustentabilidade em torno de um mesmo objetivo: devolver às pessoas o direito de caminhar em espaços limpos, seguros e convidativos.
Resíduos sólidos e sustentabilidade urbana: da política nacional à prática local
A pesquisadora Cristine Diniz Santiago, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), trouxe à discussão a dimensão estrutural da gestão de resíduos sólidos no Brasil, contextualizando o tema a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010. Em sua exposição, Cristine ressaltou que o país ainda enfrenta uma realidade preocupante: apenas cerca de 32% dos municípios brasileiros possuem algum tipo de coleta seletiva, e menos de 2% dos resíduos recicláveis são efetivamente reaproveitados.
A pesquisadora diferenciou os termos “lixo” e “resíduo sólido”, destacando que o primeiro carrega uma conotação negativa de descarte e sujeira, enquanto o segundo reconhece valor econômico e social nos materiais descartados, possibilitando sua reinserção na cadeia produtiva. Essa distinção semântica, segundo ela, é fundamental para alterar a percepção social e promover políticas mais inclusivas e sustentáveis.
Cristine apresentou dados que ilustram a dimensão do desafio: cada brasileiro gera, em média, cerca de 1 kg de resíduos por dia, o que equivale a 358 kg por pessoa ao ano. Somando-se a geração nacional, o Brasil produziu mais de 63 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2022. Contudo, a capacidade de coleta seletiva e de tratamento ainda é incipiente, com grande dependência de sistemas informais.
Nesse contexto, os catadores de materiais recicláveis assumem papel central. Responsáveis por mais de 90% dos recicláveis recuperados no país, eles operam na base de uma cadeia ainda marcada pela informalidade e pela precarização. Cristine defendeu sua valorização como agentes ambientais e destacou que a inclusão social e econômica desses trabalhadores é condição indispensável para a efetividade da PNRS e para a transição a uma economia circular.
Além disso, a pesquisadora enfatizou a necessidade de planejamento intersetorial e de inovação local. Projetos como o apresentado no workshop, que articulam gestão de resíduos e mobilidade ativa, exemplificam abordagens integradas capazes de revitalizar espaços públicos e reduzir impactos ambientais. Para ela, o desafio não é apenas técnico, mas cultural e político, exigindo educação ambiental, engajamento comunitário e cooperação entre diferentes níveis de governo.
A acessibilidade como eixo estruturante da mobilidade a pé
A fala de Juliana Sabino trouxe uma perspectiva sensível e essencial à discussão: a da acessibilidade urbana. A partir de sua experiência pessoal e profissional, Juliana abordou a calçada como o principal espaço de circulação de pedestres e defendeu que mobilidade a pé e acessibilidade são dimensões inseparáveis.
Ela apresentou o conceito de “Mapa da Acessibilidade”, um método de diagnóstico e percepção do espaço urbano que propõe três etapas: compreender a dinâmica de utilização da calçada, reconhecer a diversidade humana (pessoas com diferentes condições físicas e sensoriais) e aplicar as normas técnicas e legislações pertinentes, como a NBR 9050 e os códigos municipais de obras.
Juliana enfatizou que a calçada é um espaço coletivo por natureza, embora, no Brasil, a legislação frequentemente atribua sua manutenção aos proprietários dos imóveis. Essa ambiguidade — público e privado ao mesmo tempo — contribui para a desigualdade na qualidade das calçadas e para a ausência de um padrão mínimo de acessibilidade.
Ao ilustrar com exemplos, Juliana mostrou como pequenos detalhes — como o posicionamento inadequado de uma árvore, o acúmulo de entulho ou a instalação incorreta de lixeiras — podem comprometer a circulação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Defendeu que qualquer projeto de requalificação urbana deve partir da perspectiva de quem caminha, incorporando soluções de desenho universal, padronização de mobiliário e manutenção contínua.
A palestrante destacou ainda a importância de educação cidadã e empatia na construção de cidades inclusivas. Segundo ela, compreender a experiência do outro — seja um idoso, uma criança, uma pessoa com deficiência visual ou um trabalhador que empurra um carrinho de reciclagem — é o primeiro passo para transformar a infraestrutura e a cultura urbana.
Integração, inovação e corresponsabilidade: uma visão urbanística ampliada
Encerrando o ciclo de exposições, o urbanista Ricardo Corrêa propôs uma leitura sistêmica das questões tratadas, destacando a necessidade de pensar o espaço urbano como infraestrutura integrada e multifuncional. Em sua visão, nenhum problema urbano é isolado: o lixo, a mobilidade, o saneamento, a drenagem e o mobiliário urbano fazem parte de uma mesma teia que deve ser planejada de forma coordenada.
Ricardo defendeu que o planejamento urbano contemporâneo deve superar a fragmentação setorial e valorizar soluções que sirvam a múltiplas funções simultaneamente. Um exemplo é o redesenho de calçadas e ciclovias que, além de favorecer a mobilidade não motorizada, podem integrar sistemas de drenagem sustentável, arborização e pontos de coleta seletiva.
O palestrante abordou ainda o caráter histórico e cultural da calçada no Brasil, lembrando que sua concepção original — como extensão do lote e barreira de proteção da casa — explica parte da atual confusão entre espaço privado e público. Ele defendeu uma nova mentalidade urbana, na qual a calçada seja reconhecida como patrimônio coletivo, merecendo planejamento, gestão e investimento equivalentes aos destinados à via dos automóveis.
Por fim, Ricardo destacou que a construção de cidades sustentáveis passa pela corresponsabilidade social. A gestão de resíduos e o cuidado com o espaço público não são apenas tarefas do poder público, mas de toda a sociedade. Requalificar as calçadas, racionalizar o espaço e valorizar o pedestre são, em última instância, formas de reconstruir vínculos comunitários e promover equidade urbana.
Conclusões: caminhar e cuidar como atos políticos
O workshop evidenciou que a integração entre mobilidade a pé e gestão de resíduos urbanos vai muito além de um arranjo técnico. Trata-se de um projeto civilizatório, que redefine as relações entre pessoas, espaço e meio ambiente. Caminhar e cuidar do lixo são, ambos, gestos de pertencimento e de responsabilidade compartilhada.
A partir das falas e trocas entre os participantes, ficou claro que a calçada é o primeiro laboratório da cidade sustentável. É nela que se encontram os desafios de acessibilidade, convivência, saúde pública, meio ambiente e cidadania. Pensar a calçada como infraestrutura estratégica é pensar a cidade como um organismo vivo, que precisa ser limpo, inclusivo e caminhável.
O evento encerrou-se com um chamado à ação coletiva. Como destacou Marco Portugal, não podemos avançar enquanto o lixo nos faz recuar. Transformar essa realidade depende de diálogo, inovação e coragem para enfrentar resistências culturais. Caminhar para transformar, portanto, é mais do que um slogan: é uma metáfora poderosa sobre como reconstruir o futuro urbano com passos firmes, conscientes e solidários.
Assista o vídeo com a gravação do evento na íntegra:

