Lixeiras a vácuo: solução para o lixo nas calçadas brasileiras?

por Marco Antonio Portugal
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Foto: FredrikLindseth, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Lixeiras a vácuo representam uma inovação promissora na gestão de resíduos sólidos urbanos, com potencial para transformar a paisagem das cidades e mitigar problemas crônicos como o acúmulo de lixo nas calçadas. Em diversas partes do mundo, sistemas pneumáticos de coleta de lixo têm demonstrado eficácia na redução da poluição visual e ambiental, otimizando a logística de coleta e promovendo a sustentabilidade. A experiência de cidades como Bergen, na Noruega, serve de inspiração, mas também revela os desafios inerentes à implementação dessa tecnologia. No Brasil, onde a gestão de resíduos ainda enfrenta obstáculos significativos, a adoção de lixeiras a vácuo poderia ser um caminho para um futuro mais limpo e organizado, embora exija planejamento e investimento substanciais.

Bergen: O Pioneirismo Norueguês na Coleta a Vácuo

Bergen, uma cidade medieval na Noruega, destaca-se por seu avançado sistema de gestão de resíduos que utiliza lixeiras a vácuo. Sob as ruas de paralelepípedos, uma rede de tubos suga o lixo para fora da cidade com uma força equivalente a meio milhão de aspiradores domésticos. Os moradores depositam seus resíduos em receptáculos designados para lixo e reciclagem, que liberam automaticamente seu conteúdo quando cheios.

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Os benefícios desse sistema são notáveis: caminhões de lixo fazem menos viagens pelas ruas estreitas de Bergen, aliviando o tráfego, reduzindo a poluição do ar e cortando as emissões de diesel em até 90%. As ruas se tornam mais organizadas, e a incidência de ratos diminui. Além disso, o risco de incêndios acidentais causados por lixo é minimizado, uma preocupação histórica para a cidade, que já foi destruída por fogo diversas vezes.

Bergen é uma das aproximadamente 200 cidades globalmente que implementaram sistemas pneumáticos de coleta de resíduos. Embora cidades como Estocolmo (Suécia), Seul (Coreia do Sul) e Doha (Catar) incentivem ou exijam a instalação de tubos de lixo em novos grandes projetos de construção, Bergen é pioneira na adaptação de seus bairros centenários com um sistema automatizado de coleta de lixo em toda a cidade.

No entanto, a implementação não é isenta de desafios. Bergen investiu cerca de 1 bilhão de coroas norueguesas (aproximadamente R$ 550 milhões) desde 2007 e ainda não concluiu o projeto. A dificuldade reside não apenas no custo, mas também na complexidade logística de escavar as ruas da cidade. A conclusão da rede levará anos e exigirá um investimento adicional significativo.

O sistema de Bergen também introduziu um modelo de cobrança baseado na quantidade de lixo não separado descartado, incentivando a reciclagem. Moradores utilizam um chaveiro com sensor para abrir as entradas de resíduos, permitindo que a cidade rastreie o volume descartado. Essa abordagem resultou em um aumento de 15% nas taxas de reciclagem em bairros com o novo sistema de cobrança.

Outros Exemplos Globais e a Realidade Brasileira

Além de Bergen, o sistema de coleta de lixo a vácuo tem sido adotado em diversas outras cidades ao redor do mundo, especialmente em novos empreendimentos urbanos. Cidades como Barcelona, Estocolmo e Helsinque, e até mesmo projetos ambiciosos como Neom na Arábia Saudita e Lusail no Catar, incorporam essa tecnologia em sua infraestrutura. Nos Estados Unidos, a Disney World em Orlando e a Roosevelt Island em Nova York também utilizam sistemas de coleta a vácuo em escala de bairro.

Em Barcelona, o sistema existe desde 1992, contando hoje com 50 quilômetros de rede de tubulação subterrânea e 11 centrais de coleta, com capacidade para 40 mil toneladas de detritos por ano. A cidade possui 2.600 pontos coletores separados por tipo de resíduo (orgânicos, vidros, papel e plásticos), impactando positivamente a vida de 500 mil habitantes.

No Brasil, a tecnologia ainda é incipiente, mas já existem exemplos de sua aplicação. O Shopping Parque da Cidade, em São Paulo, utiliza o sistema ENVAC, onde os resíduos são coletados por dutos subterrâneos e viajam a 70 km/h para uma central que os direciona para descarte, evitando contaminação. Esse sistema reduz a quantidade de rejeitos encaminhados para aterros e o número de viagens de caminhões de lixo, além de facilitar a reciclagem e promover o descarte ambientalmente correto de forma silenciosa e sem odor. O Hospital Sírio Libanês, também em São Paulo, foi o primeiro hospital da América Latina a utilizar essa tecnologia para coleta de lixo hospitalar.

Esses exemplos demonstram a viabilidade da tecnologia em diferentes contextos, mas também ressaltam que a implantação em cidades já estabelecidas, com infraestrutura complexa, é um desafio considerável. O custo inicial e a necessidade de escavações extensas são os principais obstáculos.

O Desafio do Lixo nas Calçadas Brasileiras

A situação do lixo urbano no Brasil é um problema crônico e multifacetado. Em 2022, o país destinou de forma incorreta 33,3 milhões de toneladas de lixo, segundo dados da Abrema. A produção de lixo por habitante tem aumentado, e apenas uma pequena parcela do lixo urbano é reaproveitada, com uma taxa de reciclagem de apenas 8,3% em 2023. Além disso, 31,9% dos municípios brasileiros ainda utilizam lixões, a pior forma de disposição final de resíduos sólidos.

O descarte inadequado de lixo nas calçadas e vias públicas é uma realidade em muitas cidades brasileiras, contribuindo para enchentes, proliferação de pragas, mau cheiro e degradação da paisagem urbana. A coleta tradicional, muitas vezes ineficiente e com rotas fixas, não consegue atender à demanda crescente, resultando em acúmulo de resíduos e problemas de saúde pública.

Nesse cenário, a questão levantada é pertinente: as lixeiras a vácuo podem ser uma solução para o problema do lixo nas calçadas no Brasil? A resposta é complexa. A tecnologia oferece benefícios inegáveis, como a eliminação do mau cheiro, a redução do tráfego de caminhões de lixo, a diminuição da poluição sonora e do ar, e a melhoria da estética urbana. Além disso, sistemas como o de Bergen, que incentivam a separação e a reciclagem através de cobranças por descarte, poderiam impulsionar a educação ambiental e a participação da população na gestão de resíduos.

No entanto, os desafios são igualmente grandes. O alto custo de implantação e a complexidade de adaptar a infraestrutura subterrânea em cidades já consolidadas são barreiras significativas. A experiência de Bergen, que gastou centenas de milhões de reais e ainda não concluiu seu sistema após anos de trabalho, serve de alerta. A viabilidade econômica e a necessidade de um planejamento urbano integrado seriam cruciais para o sucesso de projetos dessa natureza no Brasil.

Para que as lixeiras a vácuo se tornem uma solução em larga escala no Brasil, seria necessário um investimento massivo em infraestrutura, políticas públicas de incentivo e um planejamento de longo prazo que envolva governos, iniciativa privada e a população. A tecnologia, por si só, não resolverá o problema sem uma mudança cultural e um compromisso com a gestão sustentável de resíduos. No entanto, como demonstram os exemplos internacionais e as poucas iniciativas brasileiras, o potencial para transformar a realidade do lixo nas calçadas é real e promissor.

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