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Desafios e soluções para a manutenção sustentável em condomínios residenciais: Uma perspectiva de ciclo de vida

A habitação representa um elemento fundamental para a integridade física e social dos seres humanos. No Brasil, o crescimento vertical das cidades trouxe consigo desafios significativos para a sustentabilidade urbana. Os edifícios residenciais, desde pequenas estruturas até arranha-céus, exigem manutenção periódica e consomem continuamente energia e água para funcionar.

O setor da construção civil é responsável por um terço do consumo global de energia e 40% do consumo de matérias-primas. A construção e operação de edifícios tornam o setor um dos principais contribuintes para as emissões de CO2, representando cerca de 37% das emissões globais. Para minimizar esses impactos negativos, a indústria tem desenvolvido materiais e processos construtivos inovadores.

No entanto, apesar dos avanços na fase de construção, existe uma lacuna crítica: a manutenção sustentável dos condomínios após sua entrega. Proprietários e gestores frequentemente carecem do conhecimento necessário para operar e manter seus edifícios de forma sustentável, comprometendo os benefícios ambientais e econômicos a longo prazo.

 

O ciclo de vida dos edifícios: Por que a manutenção sustentável importa?

A abordagem de ciclo de vida na construção civil considera todas as fases de um edifício: projeto, construção, operação, manutenção e eventual demolição. Cada fase impacta diretamente o desempenho ambiental e econômico da edificação. Porém, enquanto a fase de projeto e construção recebe atenção considerável, a manutenção é frequentemente negligenciada.

Um edifício pode durar décadas ou até séculos, e sua fase operacional representa o período mais longo do ciclo de vida. Durante este tempo, o consumo de energia e água, bem como a geração de resíduos, podem superar significativamente os impactos da fase de construção. Por isso, práticas de manutenção sustentável são essenciais para preservar a eficiência dos sistemas e reduzir o impacto ambiental ao longo do tempo.

Casos reais ilustram essa problemática. Em um condomínio certificado pelo Processo AQUA-HQE™ em São Paulo, painéis solares permaneceram inativos por anos devido à falta de manutenção adequada. A Estação de Tratamento de Águas Cinzas operava com ineficiência, resultando em custos mais elevados do que o uso de água potável. Esses exemplos demonstram como a falta de manutenção sustentável pode comprometer investimentos iniciais em tecnologias verdes.

A manutenção regular não apenas prolonga a vida útil das construções, mas também aumenta a durabilidade, economiza custos e melhora a segurança. Quando realizada com foco na sustentabilidade, ela contribui para a redução das emissões de carbono e para o uso eficiente de recursos naturais.

 

Barreiras invisíveis: Os desafios da gestão sustentável em condomínios

A pesquisa identificou diversos obstáculos que dificultam a implementação de práticas sustentáveis em condomínios residenciais. O primeiro desafio é a baixa conscientização dos moradores sobre a importância da manutenção sustentável. Muitos proprietários não compreendem os benefícios econômicos e ambientais dessas práticas, o que dificulta a aprovação de investimentos necessários em assembleias condominiais.

Outro problema crítico é a falha na transferência de informações entre construtoras e gestores. Quando um condomínio é entregue, raramente há uma comunicação formal sobre os sistemas sustentáveis instalados e seus requisitos de manutenção. No estudo de caso analisado, nem os gestores nem grande parte dos moradores tinham conhecimento da certificação ambiental do condomínio.

A ausência de um histórico formal de manutenção agrava a situação. As transições entre administrações condominiais frequentemente ocorrem sem o repasse adequado de informações sobre o histórico do edifício. Os únicos registros disponíveis costumam ser as atas de reuniões, que se concentram em questões financeiras e raramente abordam aspectos técnicos da manutenção.

Embora as construtoras forneçam manuais básicos de manutenção e desenhos construtivos, informações detalhadas sobre a operação dos equipamentos são escassas. Isso deixa o condomínio responsável por descobrir essas informações e resolver falhas, mesmo durante o período de garantia. Com o tempo, a falta de histórico de manutenção resulta em problemas como sistemas automatizados operando manualmente e equipamentos sendo substituídos desnecessariamente.

A administração amadora, caracterizada por medidas de manutenção ineficientes e pouco confiáveis, tem seus impactos negativos amplificados por uma rede de prestadores de serviços que muitas vezes também carecem de qualificações técnicas. Isso reflete a ausência de um arcabouço institucional mais robusto que envolva incorporadoras, formuladores de políticas e instituições financeiras na promoção da manutenção sustentável.

 

Incentivos que Transformam: O Papel das Políticas Públicas

As políticas públicas desempenham um papel crucial na promoção de práticas sustentáveis em condomínios residenciais. No Brasil, iniciativas como o IPTU Verde de Salvador oferecem descontos progressivos no imposto para condomínios que adotam práticas sustentáveis, como instalação de sistemas de captação de água da chuva, medidas de eficiência energética e gestão eficiente de resíduos sólidos.

No entanto, essas iniciativas ainda são limitadas e enfrentam desafios constitucionais. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 13/2019, aprovada pelo Senado Federal, busca incentivar “o uso de água da chuva, o reúso de águas residuais, o tratamento local de águas residuais, a recarga de aquíferos, o uso de telhados verdes, a permeabilidade do solo e o uso de energia renovável na propriedade”. Se mantida até a aprovação final, essa mudança na Constituição Federal resultará em uma abertura limitada de incentivos através da redução da alíquota do IPTU.

Para superar essas limitações, é recomendada a formulação de um arcabouço político mais robusto. Medidas sugeridas incluem:

  1. Incentivos fiscais verdes: Expandir políticas de renúncia fiscal para oferecer descontos progressivos para condomínios que adotam práticas sustentáveis.
  2. Certificações de sustentabilidade obrigatórias: Estabelecer requisitos progressivos para condomínios e novas construções adotarem certificações ambientais reconhecidas.
  3. Subsídios para retrofits sustentáveis: Criar programas governamentais de financiamento e subsídios para a modernização de edifícios antigos.
  4. Planos de manutenção sustentável obrigatórios: Estabelecer diretrizes para condomínios manterem um registro formal de manutenção sustentável, com auditorias periódicas.
  5. Capacitação e certificação para síndicos: Desenvolver programas de treinamento contínuo e obrigatório para síndicos e administradores de condomínios.
  6.  

É essencial encontrar um equilíbrio entre os indicadores de sustentabilidade desejados e os incentivos oferecidos. Sem esse equilíbrio, há o risco de baixa participação ou redução da receita tributária para os municípios. Para alcançar esse equilíbrio, as políticas públicas devem priorizar a regulamentação e fiscalização, em vez de depender apenas de isenções fiscais.

 

Construindo o futuro: Um modelo integrado para manutenção sustentável

A pesquisa resultou no desenvolvimento de um modelo estruturado para manutenção sustentável de propriedades, com seis estágios que consolidam os desafios relacionados à aplicação da Avaliação de Sustentabilidade do Ciclo de Vida (ASCV).

No modelo proposto, a fase de Projeto estabelece a base para todo o ciclo, abordando considerações de sustentabilidade na Construção, Operação e Manutenção. O projeto sustentável visa estender o ciclo de vida do produto e otimizar as fases de Operação, Manutenção e Renovação.

Durante a fase de Construção, o planejamento sustentável e a adesão às configurações são cruciais. É essencial promover projetos que ofereçam benefícios operacionais e custos de manutenção mais baixos. A fase de comissionamento deve ser implementada entre a Construção e a Operação & Manutenção para transferir conhecimento ao condomínio.

A fase de Operação & Manutenção envolve seguir o plano de manutenção, documentar intervenções preventivas e corretivas, e possuir a competência técnica e administrativa necessária. Esta fase se repete, se viável, no contexto da ASCV, sendo interrompida apenas por renovações ou quando o edifício atinge o fim de seu ciclo de vida.

A Renovação, uma etapa intermediária na ASCV, também pode servir como fase inicial para edifícios que não foram projetados de forma sustentável.

Para implementar esse modelo com sucesso, é necessário desenvolver métricas quantitativas que permitam avaliar os benefícios econômicos e ambientais das práticas sustentáveis. Isso inclui indicadores como redução nos custos operacionais do condomínio, diminuição nas emissões de CO2 e nível de engajamento dos moradores com práticas sustentáveis.

 

Conclusão: Transformando desafios em oportunidades sustentáveis

A manutenção sustentável de condomínios residenciais no Brasil ainda enfrenta desafios significativos, incluindo a falta de conscientização entre proprietários e gestores, a ausência de um histórico formal de manutenção e a escassez de incentivos claros para a adoção de práticas sustentáveis.

Para superar esses obstáculos, é necessária uma abordagem integrada que combine regulamentações, incentivos e educação. O desenvolvimento de políticas públicas robustas, a criação de métricas quantitativas para avaliar a sustentabilidade e o aumento da conscientização dos proprietários são passos fundamentais para consolidar a sustentabilidade na gestão condominial.

A implementação efetiva de práticas sustentáveis de manutenção não apenas reduz o impacto ambiental dos edifícios, mas também oferece benefícios econômicos significativos para os moradores, como a redução de custos operacionais a longo prazo. Além disso, contribui para um desenvolvimento urbano mais sustentável, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O caminho para a sustentabilidade na manutenção de condomínios residenciais exige o engajamento de todos os atores envolvidos: construtoras, gestores, moradores, formuladores de políticas e instituições financeiras. Somente através dessa colaboração será possível transformar os desafios atuais em oportunidades para um futuro mais sustentável e economicamente viável para todos.

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Marco Antonio Portugal

Doutorando em Operações e Gestão Sustentável, Mestre em Gestão da Inovação e Engenheiro Civil pelo Centro Universitário FEI, com mais de 25 anos de experiência no setor de Construção Civil. Especializado em Gerenciamento de Projetos, possui MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV, MBA Executivo em Administração de Empresas pelo Ibmec e MBA em Administração de Empresas para Engenheiros pelo Centro Universitário FEI. Empreendedor, escritor, pesquisador e jornalista, com registro #0089833/SP.

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Maria Gabriela Portugal
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