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O setor da construção civil representa cerca de 6% do PIB global e contribui significativamente para o crescimento econômico por meio de melhorias na infraestrutura. No Brasil, este setor mantém uma relação estreita com o governo, especialmente em grandes projetos públicos. Esta proximidade, no entanto, criou um ambiente propício para práticas corruptas que prejudicaram o desenvolvimento do país por décadas.
A Operação Lava Jato, conduzida pela Polícia Federal brasileira desde 2014, revelou-se a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro da história do país. O esquema descoberto envolveu empreiteiras, funcionários da Petrobras, operadores financeiros e agentes políticos em um sistema de corrupção que, segundo investigadores, funcionava há pelo menos 30 anos. As práticas corruptas identificadas expuseram falhas graves na legislação de licitações que permitiram o desvio de bilhões de reais dos cofres públicos.
O esquema de corrupção desvendado pela Operação Lava Jato funcionava por meio de três grupos criminosos principais. O primeiro grupo, conhecido como “Clube”, era formado por diretores de grandes empreiteiras organizadas em cartel. Estas empresas tinham acesso privilegiado aos orçamentos confidenciais da Petrobras e combinavam preços superfaturados, geralmente 20% acima do orçamento base.
Para evitar suspeitas, as empresas do cartel se revezavam nas licitações. Elas decidiam antecipadamente qual empresa venceria cada concorrência, enquanto as demais apresentavam propostas com valores mais altos ou se abstinham de participar. Este sistema garantia que todas as empresas do “Clube” fossem beneficiadas ao longo do tempo.
O segundo grupo era formado por diretores da Petrobras que facilitavam o esquema. Em troca, recebiam propinas que chegavam a 5% do valor dos contratos. Já o terceiro grupo era composto por operadores financeiros, conhecidos como “doleiros”, que simulavam contratos e movimentavam dinheiro por meio de contas bancárias no exterior para ocultar a origem ilícita dos recursos.
A investigação revelou que este modelo de corrupção não se limitava à Petrobras. O mesmo padrão foi identificado em diversas obras públicas pelo país, demonstrando um problema sistêmico na relação entre o setor de construção civil e o poder público no Brasil.
A Lei 8.666/1993, principal legislação sobre licitações no Brasil durante o período investigado, foi criada justamente para combater a corrupção após o escândalo que levou ao impeachment do presidente Fernando Collor em 1992. Paradoxalmente, esta lei acabou criando um ambiente excessivamente burocrático que, em vez de impedir, facilitou práticas corruptas.
Entre as principais falhas identificadas estão as especificações de projeto inadequadas. A lei permitia licitações baseadas em anteprojetos com poucos detalhes técnicos. Esta imprecisão gerava incertezas que resultavam em propostas mais caras, com margens de segurança infladas que facilitavam o pagamento de propinas.
Outro ponto crítico era a manipulação dos orçamentos-base. Técnicas como o “Jogo de Planilha” permitiam que empresas apresentassem preços aparentemente competitivos, mas com distorções estratégicas em itens específicos. Após vencerem a licitação, conseguiam aditivos contratuais que aumentavam significativamente o valor final da obra.
A ausência de estudos de viabilidade adequados também contribuiu para o problema. Projetos eram aprovados sem análises técnicas rigorosas, resultando em obras desnecessárias ou superdimensionadas. Nos oito casos analisados na Petrobras, estudos de viabilidade superficiais levaram a gastos adicionais de 4 bilhões de dólares, um aumento de 24,7% sobre os investimentos previstos.
A falta de transparência agravava a situação. A não divulgação das fases preliminares de publicação dos editais permitia que empresas se aproximassem do governo para influenciar ilegalmente a elaboração das regras, incluindo requisitos que apenas elas conseguiriam atender.
A corrupção sistêmica no setor da construção civil gerou consequências devastadoras para o Brasil. Além do desvio direto de recursos públicos, criou distorções de mercado que prejudicaram a concorrência leal. Empresas que não participavam dos esquemas ilícitos enfrentavam desvantagens competitivas significativas, o que desestimulava investimentos e inovação no setor.
A qualidade das obras públicas também foi comprometida. Com parte dos recursos desviada para propinas, as empresas frequentemente entregavam construções de padrão inferior ao contratado ou deixavam obras inacabadas. Exemplos notórios incluem a Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro, construída para os Jogos Olímpicos, que teve um aumento de custo de aproximadamente 300%, passando de 735 milhões para cerca de 3 bilhões de dólares.
O impacto econômico foi igualmente severo. A corrupção reduziu investimentos privados e o crescimento econômico do país. Pequenas variações nos níveis de corrupção influenciaram negativamente a internacionalização de empresas para o Brasil, que sofreu com a redução de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED).
Socialmente, a corrupção contribuiu para o aumento da desigualdade e da pobreza. Os recursos que deveriam ser destinados a melhorias na infraestrutura e serviços públicos acabaram nas mãos de poucos, perpetuando um ciclo de subdesenvolvimento que afeta milhões de brasileiros.
A experiência da Operação Lava Jato trouxe lições valiosas para o combate à corrupção no setor da construção civil. A nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2023) busca corrigir algumas das falhas identificadas, mas sua eficácia dependerá da implementação adequada e da fiscalização constante.
Entre as melhorias necessárias está a exigência de projetos mais detalhados antes das licitações. Especificações técnicas precisas reduzem incertezas e limitam a possibilidade de manipulação dos contratos. A inclusão de uma matriz de riscos nos contratos, definindo claramente responsabilidades entre as partes, também pode desencorajar práticas corruptas.
A transparência em todas as fases do processo licitatório é fundamental. A divulgação pública de informações desde a concepção até a operacionalização dos projetos limita oportunidades de desvios e permite o controle social. Prioridade deve ser dada a projetos que prevejam os maiores retornos para a sociedade, com maior preocupação sobre o impacto de atrasos e aumentos de custos.
O fortalecimento dos órgãos de fiscalização, como o Tribunal de Contas da União (TCU), é essencial. O programa Fiscobras, que audita obras públicas financiadas com recursos federais, demonstrou eficácia na identificação de irregularidades, mas precisa de mais recursos e autonomia para atuar preventivamente.
A Operação Lava Jato expôs as entranhas da corrupção no setor da construção civil brasileiro, revelando como falhas na legislação de licitações foram exploradas para desviar recursos públicos. O escândalo, no entanto, também criou uma oportunidade única para reformas estruturais que podem transformar a relação entre o setor público e privado no Brasil.
Para que estas reformas sejam efetivas, é necessária uma mudança cultural e institucional profunda. A corrupção persistirá até que medidas adequadas sejam implementadas para combater o superfaturamento e outras causas subjacentes. Isso inclui não apenas aprimorar a legislação, mas também fortalecer as instituições responsáveis pela fiscalização e punição dos envolvidos.
O setor da construção civil tem potencial para ser um motor do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao garantir processos licitatórios transparentes e eficientes, o país pode atrair investimentos legítimos, promover a concorrência justa e assegurar que os recursos públicos sejam utilizados em benefício de toda a sociedade. A lição mais importante da Lava Jato é que a corrupção não é inevitável – com vontade política e participação social, é possível construir um futuro mais íntegro e próspero para todos os brasileiros.
Edmilson Alves de Moraes
ORCID
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