A-ERA-DAS-LIVES-

A Era das Lives: Como Bolsonaro moldou o debate político no Brasil

A comunicação política brasileira passou por uma transformação radical durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022). O livro “A Era das Lives”, de Marco Antonio Portugal e Maria Gabriela Portugal, analisa como as transmissões ao vivo semanais do então presidente criaram um novo paradigma na relação entre governantes e cidadãos. Essas lives, realizadas principalmente às quintas-feiras, estabeleceram um canal direto entre o presidente e milhões de brasileiros, dispensando a mediação da imprensa tradicional.

O fenômeno das transmissões presidenciais ao vivo representa muito mais que uma simples adaptação às redes sociais. Trata-se de uma revolução na forma como líderes políticos se comunicam com a população e mobilizam suas bases de apoio. Para jornalistas, analistas políticos e interessados em comunicação política, entender esse fenômeno tornou-se fundamental para compreender as novas dinâmicas do poder na era digital.

 

A Revolução da Comunicação Direta na Era Digital

Bolsonaro transformou radicalmente a comunicação presidencial ao adotar as lives como seu principal canal de diálogo com apoiadores. Diferente dos pronunciamentos oficiais em cadeia nacional ou entrevistas coletivas, as transmissões ao vivo apresentavam um formato informal, espontâneo e sem filtros. Essa abordagem rompeu com tradições estabelecidas desde a era do rádio, quando presidentes como Franklin D. Roosevelt nos EUA (com seus “Fireside Chats”) e Getúlio Vargas no Brasil utilizavam meios de comunicação de massa para falar diretamente à população.

A grande inovação das lives de Bolsonaro foi eliminar completamente os intermediários. Enquanto presidentes anteriores dependiam da imprensa para amplificar suas mensagens, Bolsonaro falava diretamente a milhões de seguidores através do Facebook, YouTube e Instagram. Essa estratégia permitiu que ele controlasse integralmente sua narrativa, sem edições ou contrapontos jornalísticos.

O formato das transmissões – geralmente realizadas do Palácio da Alvorada, com participação de ministros e assessores – criava uma atmosfera de intimidade e transparência. A câmera posicionada frontalmente, a linguagem coloquial e os comentários improvisados sobre temas do cotidiano político transmitiam uma sensação de autenticidade que ressoava fortemente com sua base eleitoral. Essa conexão direta permitiu que Bolsonaro mantivesse sua base mobilizada mesmo em momentos de crise política e institucional.

 

A Psicologia das Massas nas Transmissões ao Vivo

As lives exploraram habilmente elementos da psicologia das massas para criar e fortalecer vínculos emocionais com o público. O livro analisa como Bolsonaro utilizou técnicas específicas para gerar identificação e lealdade entre seus seguidores. A linguagem simples e direta, repleta de expressões populares e metáforas de fácil compreensão, criava uma sensação de proximidade raramente vista na comunicação presidencial tradicional.

A informalidade era um componente central dessa estratégia psicológica. Ao aparecer frequentemente de camisa simples, fazendo piadas e usando expressões coloquiais, Bolsonaro se apresentava como “um de nós” – alguém que falava a língua do povo comum. Essa persona contrastava deliberadamente com a imagem tecnocrática e formal associada à política tradicional, reforçando sua narrativa de outsider político.

O livro destaca como as transmissões criavam um senso de pertencimento e exclusividade entre os espectadores. Frases como “vocês sabem a verdade” ou “a mídia não mostra isso” estabeleciam uma divisão clara: de um lado, os seguidores que tinham acesso à “verdadeira informação” diretamente da fonte; de outro, os que consumiam notícias “manipuladas” pela imprensa tradicional. Essa dinâmica fortalecia laços de identidade grupal e aumentava a resistência dos apoiadores a informações contraditórias vindas de outras fontes.

A repetição constante de temas, slogans e narrativas nas lives também funcionava como poderosa ferramenta psicológica. Conceitos como “Brasil acima de tudo”, “liberdade de expressão” e “valores cristãos” eram reiterados semanalmente, criando um vocabulário compartilhado que reforçava a coesão entre os seguidores e simplificava questões complexas em termos morais absolutos.

 

Estratégias Retóricas e Narrativas de Polarização

As transmissões ao vivo de Bolsonaro empregavam técnicas retóricas específicas para construir e manter um ambiente político polarizado. O livro identifica padrões recorrentes nessas estratégias, como a criação de inimigos comuns, a simplificação de debates complexos e o uso de linguagem combativa para mobilizar emocionalmente sua base.

A construção de antagonistas era elemento central nas lives. A “grande mídia”, o “sistema”, a “velha política” e os “comunistas” eram frequentemente retratados como inimigos do povo brasileiro, criando uma narrativa maniqueísta de bem contra mal. Essa técnica retórica transformava críticas e questionamentos em “ataques” de adversários, blindando o presidente contra escrutínio e fortalecendo a lealdade de seus apoiadores.

O livro analisa como as transmissões criavam uma realidade paralela através da seleção estratégica de informações. Dados econômicos favoráveis eram destacados enquanto estatísticas negativas eram ignoradas ou contestadas. Essa curadoria seletiva de fatos construía uma narrativa coerente para os seguidores, mesmo quando contraditória com a realidade apresentada por fontes independentes.

A linguagem corporal e o tom emocional também desempenhavam papel crucial na estratégia retórica. Alternando entre momentos de indignação, humor e seriedade, Bolsonaro conduzia seus espectadores por uma montanha-russa emocional que mantinha o engajamento e dificultava análises racionais do conteúdo apresentado. O livro destaca como essa técnica de comunicação emocional era particularmente eficaz para desviar a atenção de crises ou escândalos, redirecionando a energia dos apoiadores para novos alvos ou polêmicas.

 

O Impacto das Lives no Jornalismo e na Análise Política

As transmissões ao vivo de Bolsonaro transformaram profundamente o trabalho de jornalistas e analistas políticos no Brasil. O livro examina como esses profissionais precisaram adaptar suas metodologias para cobrir um presidente que se comunicava diretamente com o público e atacava frequentemente a legitimidade da imprensa.

Jornalistas enfrentaram o desafio de reportar declarações presidenciais feitas sem filtros, muitas vezes contendo informações imprecisas ou controversas. As lives geravam um ciclo noticioso peculiar: a imprensa era obrigada a cobrir as declarações do presidente, mesmo quando estas continham ataques diretos à própria mídia. Essa dinâmica colocava os veículos de comunicação na posição paradoxal de amplificar mensagens que minavam sua própria credibilidade.

O livro destaca como analistas políticos precisaram desenvolver novas ferramentas para interpretar esse fenômeno comunicacional. A análise tradicional, focada em pronunciamentos oficiais e entrevistas formais, mostrou-se insuficiente para compreender um presidente que revelava suas intenções e posicionamentos de forma mais autêntica em transmissões informais. Declarações que seriam consideradas “deslizes” ou “gafes” em contextos tradicionais eram, na verdade, elementos estratégicos de comunicação com públicos específicos.

A fragmentação do ambiente informacional também impactou profundamente o trabalho jornalístico. Com milhões de brasileiros consumindo informação política diretamente das lives presidenciais e de redes de apoiadores nas mídias sociais, formou-se um ecossistema comunicacional paralelo, resistente ao fact-checking e às correções da imprensa tradicional. Essa realidade forçou jornalistas a repensar suas abordagens de verificação de fatos e apresentação de contrapontos.

 

Conclusão

O livro “A Era das Lives” revela como Bolsonaro revolucionou a comunicação política brasileira ao criar um canal direto com seus apoiadores, explorando elementos da psicologia das massas para mobilizar e manter sua base engajada. Essa estratégia comunicacional transformou não apenas a relação entre o presidente e seus eleitores, mas também o trabalho da imprensa e dos analistas políticos.

O legado desse modelo comunicacional para a democracia brasileira é complexo e duradouro. Por um lado, as lives democratizaram o acesso à comunicação presidencial, permitindo que cidadãos acompanhassem diretamente as declarações de seu governante. Por outro, contribuíram para a polarização política e para o enfraquecimento de instituições mediadoras essenciais ao debate público saudável.

Para jornalistas e analistas políticos, o fenômeno das lives presidenciais representa um desafio permanente. Em um cenário de crescente desintermediação da comunicação política, esses profissionais precisarão desenvolver novas abordagens para contextualizar, verificar e analisar declarações feitas diretamente por líderes políticos a seus seguidores. O equilíbrio entre reportar essas comunicações e evitar a amplificação de desinformação será um dos grandes desafios do jornalismo político nos próximos anos.

Picture of Marco Antonio Portugal

Marco Antonio Portugal

Doutorando em Operações e Gestão Sustentável, Mestre em Gestão da Inovação e Engenheiro Civil pelo Centro Universitário FEI, com mais de 25 anos de experiência no setor de Construção Civil. Especializado em Gerenciamento de Projetos, possui MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV, MBA Executivo em Administração de Empresas pelo Ibmec e MBA em Administração de Empresas para Engenheiros pelo Centro Universitário FEI. Empreendedor, escritor, pesquisador e jornalista, com registro #0089833/SP.

Demais Autores:

Maria Gabriela Portugal
LinkedIn

Publicidade


vamos conversar

Muitas maneiras de se conectar

Faça parte da rede que une ciência, inovação e sociedade!

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está ok com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar Leia Mais

Adblock Detectado

Por favor, ajude-nos desativando sua extensão AdBlocker de seus navegadores para o nosso site.