Agenda Nacional CAPES consolida, em um único documento, a bússola estratégica da pós-graduação brasileira para a próxima década. Mais do que um repositório de temas, o livro organiza prioridades, explicita lacunas históricas da política de formação de pessoal e sinaliza o tipo de ciência que o Estado brasileiro pretende favorecer até 2033.
Verifique agora mesmo a adência da sua pesquisa
Ao articular CAPES, CONFAP e Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, a Agenda Nacional CAPES passa a funcionar como eixo de convergência entre os interesses dos estados e as diretrizes federais de fomento. Para quem pesquisa políticas científicas, pós-graduação ou desenvolvimento regional, o documento é, ao mesmo tempo, termômetro e roteiro de ação.
Publicidade
Agenda Nacional CAPES como bússola estratégica
A própria CAPES descreve a Agenda Nacional CAPES como uma “bússola” para orientar a expansão da pós-graduação de acordo com as necessidades regionais, com ênfase em desenvolvimento sustentável, inclusão e equidade. O livro deixa claro que a ausência de uma agenda estruturada vinha sendo tratada como lacuna sensível da política pública, já identificada em Planos Nacionais de Pós-Graduação anteriores.
O texto introdutório explicita que a pós-graduação não pode se limitar a formar mestres e doutores em volume, mas precisa responder a desafios sociais, econômicos, humanos e ambientais concretos de cada unidade da federação. Ao reunir esses desafios em um instrumento formal de governança do Sistema Nacional de Pós‑Graduação (SNPG), a Agenda Nacional CAPES se posiciona como referência oficial para decisões de fomento, avaliação e planejamento de oferta formativa.
Processo participativo e uso de inteligência artificial
Um dos pontos mais fortes do livro é a descrição do processo participativo que originou a Agenda Nacional CAPES. Entre agosto e setembro de 2023, foram realizadas oficinas estaduais em todas as 27 unidades da federação, com 690 participantes distribuídos entre comunidade científica, setor público, setor empresarial e sociedade civil organizada.
A pergunta orientadora das oficinas era simples e direta: em quais temas estratégicos o estado deve investir na formação e fixação de mestres, doutores e pós‑doutores nos próximos dez anos. O resultado bruto foram 601 temas, posteriormente submetidos a um processo de curadoria técnica assistida por inteligência artificial para uniformização linguística e enriquecimento com palavras‑chave.
A combinação entre modelos de agrupamento de texto, modelos de linguagem e revisão humana permitiu reduzir redundâncias e ambiguidade sem criar novos temas, preservando a territorialidade das propostas estaduais. Ao final, a Agenda Nacional CAPES consolida 470 temas estratégicos e 5.980 palavras‑chave, distribuídos pelas 27 unidades da federação. Para o pesquisador, isso significa um vocabulário mais estável para leitura de editais, mapeamento de linhas de pesquisa e análise comparativa entre programas e regiões.
Os 20 macrotemas e a lógica da transversalidade
Depois da curadoria, os 470 temas são organizados em 20 macrotemas amplos, concebidos como áreas de grande escopo capazes de agregar tópicos específicos sob um eixo comum. Essa reorganização é central: transforma uma lista extensa de demandas estaduais em uma arquitetura temática que facilita a leitura, a comparação e a cooperação interinstitucional.
Notícias institucionais destacam que alguns macrotemas se mostram mais transversais, aparecendo com força em praticamente todo o país: desenvolvimento sustentável e regional; políticas públicas, gestão e governança; empreendedorismo, economia verde e desenvolvimento econômico; transformação digital, TIC e inteligência artificial; e indústria, inovação tecnológica e negócios. O livro reforça essa leitura ao apresentar uma matriz de transversalidade que relaciona a presença de cada macrotema nas diferentes unidades da federação, permitindo enxergar convergências nacionais e especificidades estaduais.
Outro aspecto relevante é que um mesmo tema pode ser vinculado a até três macrotemas, o que reconhece a natureza intersetorial dos problemas brasileiros, como clima, saúde, agricultura e inclusão digital. Para quem desenha projetos ou redes de pesquisa, a Agenda Nacional CAPES oferece uma espécie de mapa das intersecções possíveis entre áreas, favorecendo arranjos mais multidisciplinares e alinhados às prioridades oficiais.
O papel do Observatório da Agenda Nacional
O livro se articula diretamente com o Observatório da Agenda Nacional, criado por meio de Termo de Execução Descentralizada entre CAPES e UFMS, com participação do ICMC–USP/São Carlos. O objetivo declarado é monitorar, de forma contínua, a evolução do SNPG no atendimento aos temas estratégicos da Agenda Nacional CAPES.
Segundo a documentação oficial, o Observatório deve mapear a capacidade instalada da pós‑graduação frente aos temas da Agenda e acompanhar a atuação profissional de mestres e doutores nessas áreas prioritárias. Em termos práticos, isso abre caminho para indicadores mais finos sobre alinhamento entre oferta de formação, produção científica, inserção profissional e demandas territoriais.
O lançamento conjunto da Agenda Nacional CAPES e do Observatório é apresentado pela própria CAPES como estratégia de fortalecimento da governança do SNPG, aproximando a pós‑graduação das necessidades locais e regionais. Para pesquisadores de avaliação, políticas públicas ou ciência de dados aplicados à educação superior, o Observatório tende a se tornar uma fonte privilegiada para estudos de impacto e planejamento.
O que muda para pesquisadores e instituições
A leitura analítica do documento indica que a Agenda Nacional CAPES tende a se refletir em pelo menos quatro frentes de interesse direto para pesquisadores e instituições.
Primeiro, a Agenda atua como sinalizador de prioridades de fomento: ao explicitar os temas estratégicos definidos pelos estados, aumenta a previsibilidade sobre áreas em que CAPES, FAPs e parceiros federativos devem concentrar recursos para formação e pesquisa nos próximos dez anos. Isso é fundamental para o planejamento de carreira, para a definição de linhas de pesquisa em programas e para a montagem de projetos competitivos em editais.
Segundo, a matriz de transversalidade e a própria estrutura em macrotemas ajudam a identificar zonas de convergência entre regiões, o que favorece a criação de redes nacionais de cooperação científica e tecnológica. Pesquisadores podem localizar problemas comuns a diferentes estados e estruturar propostas consorciadas, com maior escala e potencial de impacto.
Terceiro, a ênfase em macrotemas como “Indústria, Inovação Tecnológica e Negócios”, “Políticas Públicas, Gestão e Governança” e “Transformação Digital, TIC e IA” sinaliza uma demanda crescente por pesquisa aplicada, inovação e produção de valor público. Isso dialoga com uma visão de pós‑graduação menos encerrada em si mesma e mais orientada a resultados concretos em políticas, serviços e processos produtivos.
Por fim, a articulação entre Agenda Nacional CAPES e Observatório indica que a atuação dos egressos e o alinhamento territorial da formação tendem a entrar com mais força na discussão sobre qualidade e relevância da pós‑graduação. Essa mudança pode reconfigurar critérios de avaliação e dar mais peso a indicadores de inserção social, econômica e territorial dos programas.
Limites, desafios e potencial de impacto
Como todo documento institucional, a Agenda Nacional CAPES adota um tom predominantemente descritivo e propositivo, com pouco espaço para debate de conflitos e tensões que atravessam o sistema de ciência e tecnologia. O livro registra muito bem o “o que” foi priorizado, mas discute menos o “por quê” de certas escolhas e a disputa de agendas que naturalmente acompanha processos participativos desse porte.
Ainda assim, o conjunto formado por oficinas estaduais, curadoria assistida por IA, organização em macrotemas e criação do Observatório revela uma inflexão importante na forma como o Estado brasileiro pretende coordenar a pós‑graduação. Ao ancorar decisões em diagnósticos territoriais e em monitoramento contínuo, a Agenda Nacional CAPES tende a reduzir o descompasso entre expansão de vagas, distribuição de bolsas, produção científica e necessidades efetivas dos territórios.
Do ponto de vista de quem pesquisa, o valor principal do livro está em oferecer um quadro claro de prioridades, linguagem padronizada para temas estratégicos e uma base de referência que provavelmente será usada em editais, planos institucionais e instrumentos de avaliação. Em síntese, a Agenda Nacional CAPES ajuda a tirar a pós‑graduação de uma posição isolada e a recolocá‑la como engrenagem central de um projeto de desenvolvimento mais inclusivo, sustentável e tecnologicamente orientado.

