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O que existe entre o asfalto e a lavoura pode parecer apenas um pedaço de terra sem grande valor. Mas um estudo recente mostra que, no Cerrado, essas faixas laterais das estradas formam um patrimônio ambiental subestimado, capaz de conservar vegetação nativa, estocar carbono e funcionar como refúgio para a biodiversidade em uma das regiões mais pressionadas do Brasil.
As margens de rodovias no Cerrado raramente entram no debate público sobre conservação. Ainda assim, foi justamente ali que pesquisadores identificaram uma área com potencial ecológico real, mesmo sob forte pressão da expansão agropecuária, da urbanização e da ocupação irregular.
O trabalho analisou rodovias pavimentadas em Minas Gerais, Goiás e no Distrito Federal, áreas que concentram uma malha viária extensa e também figuram entre as que mais perderam vegetação nativa do Cerrado nos últimos anos. A partir de imagens de satélite e dados de campo, os autores chegaram a uma conclusão que muda a forma de olhar para essas faixas ao lado das pistas: elas não são apenas sobras de infraestrutura, mas partes vivas da paisagem.
Rodovias costumam ser lembradas pelos impactos negativos sobre a natureza, como fragmentação de habitats, atropelamento de fauna e abertura de novas frentes de ocupação. Só que as faixas de vegetação que permanecem em suas bordas podem, em alguma medida, reduzir parte desses danos e oferecer serviços ecológicos importantes.
Segundo o estudo, essas áreas podem servir como corredores para a movimentação de espécies, ajudar na manutenção da diversidade genética, favorecer polinizadores e ainda contribuir para o sequestro de carbono. Em um bioma como o Cerrado, que já perdeu grandes porções de sua cobertura original, isso transforma as margens de estrada em espaços estratégicos para conservação e planejamento territorial.
O tema ganha ainda mais peso quando se considera a tendência global de expansão da malha rodoviária. Os autores lembram que milhões de quilômetros de novas estradas devem ser construídos até 2050, sobretudo em países em desenvolvimento e em áreas biologicamente ricas, o que amplia a urgência de pensar não só na estrada em si, mas também no que acontece ao redor dela.
O levantamento identificou 24.566,5 quilômetros de rodovias pavimentadas na área estudada, sendo 12.974,7 quilômetros em Minas Gerais e 11.591,7 quilômetros em Goiás e no Distrito Federal. Considerando uma faixa de 30 metros de cada lado das pistas, os pesquisadores estimaram que essas margens somam 147.398,9 hectares.
Desse total, 32,08% ainda estavam cobertos por vegetação nativa do Cerrado em 2023. Em outras palavras, quase um terço dessas bordas viárias ainda funciona como área natural em uma paisagem marcada por conversões para usos humanos.
A pesquisa também mostrou que as rodovias de pista simples conservam mais vegetação nativa em suas margens do que as rodovias multilane. Nas estradas de duas pistas, a cobertura nativa chegou a 33,1%, enquanto nas multilane ficou em 25,1%.
As diferenças regionais também chamam atenção. Em Minas Gerais, as margens de rodovias apresentaram 35,4% de vegetação nativa, contra 28,6% em Goiás e no Distrito Federal.
Outro resultado importante é que, entre 2017 e 2023, a quantidade de vegetação nativa nessas áreas ficou relativamente estável. Isso não significa que o problema esteja resolvido, mas sugere que, mesmo sem uma política robusta de valorização dessas faixas, o que restou ainda resiste — e talvez possa responder positivamente a medidas de proteção e restauração.
Um dos pontos mais fortes do estudo está no carbono armazenado nessas áreas. Com base em inventários de 1.663 árvores distribuídas em 100 parcelas de campo, os autores estimaram que a vegetação nativa das margens viárias armazena, em média, 12,66 toneladas de carbono por hectare acima do solo.
Quando esse valor é extrapolado para toda a área remanescente de vegetação nativa nas margens analisadas, o resultado passa de 600 mil toneladas de carbono estocadas. É uma quantidade expressiva para áreas que muitas vezes são tratadas como espaços residuais, sem prioridade de conservação.
Há outro dado ainda mais eloquente. Os autores estimam que a conversão prévia das áreas já desmatadas ao longo dessas margens levou à liberação de quase 3,8 milhões de toneladas de carbono para a atmosfera.
Isso ajuda a mudar o enquadramento do problema. Quando uma margem de rodovia perde vegetação nativa, não se perde apenas paisagem: perde-se capacidade de armazenar carbono, proteger o solo, sustentar espécies e manter funções ecológicas que têm efeitos concretos sobre o território.
E o potencial pode ser ainda maior do que o cálculo principal sugere. O próprio artigo ressalta que a estimativa se baseou apenas no carbono acima do solo, enquanto outros estudos citados pelos autores indicam que, no Cerrado, uma parcela enorme do carbono está abaixo da superfície, nas raízes e no solo.
Há um equívoco persistente na forma como muita gente enxerga o Cerrado. Por ser um bioma com muitas áreas abertas, ele frequentemente é tratado como espaço “disponível”, como se fosse menos valioso do que formações florestais densas.
O artigo vai na direção oposta. Ele reforça que o Cerrado é a savana tropical mais biodiversa do mundo e que sua importância ecológica não depende apenas de árvores altas ou de paisagens fechadas, mas de um mosaico complexo de gramíneas, arbustos, árvores, fauna e solos que sustentam ciclos de água, fogo e carbono.
Essa observação é decisiva para evitar uma leitura simplista dos resultados. Os autores deixam claro que não defendem o plantio indiscriminado de árvores nas margens de rodovias para aumentar estoques de carbono, porque transformar artificialmente uma savana aberta em ambiente mais florestado também pode prejudicar a biodiversidade típica do Cerrado.
Em vez disso, a proposta central é conservar e manejar a vegetação nativa que já existe nessas bordas. Isso inclui respeitar a identidade ecológica do bioma, evitando soluções que pareçam verdes no papel, mas sejam inadequadas na prática.
Se essas faixas têm tanto valor, por que continuam tão vulneráveis. A resposta passa por um conjunto de pressões antigas e persistentes, como incorporação ilegal por propriedades vizinhas, degradação, descarte de resíduos, extração irregular e manejo inadequado.
A legislação brasileira prevê faixa não edificável ao longo das rodovias, e o estudo lembra que a ocupação ou modificação dessas áreas deveria ser proibida, salvo em situações específicas como expansão viária. Na prática, porém, muitos trechos não cumprem esse papel e acabam convertidos para usos antrópicos, sobretudo agropecuários.
Os pesquisadores também chamam atenção para uma mudança legislativa preocupante. A Lei 13.913/2019 passou a permitir que municípios e distritos reduzam a largura dessas faixas de 15 metros para apenas 5 metros, o que pode diminuir drasticamente a capacidade ecológica das margens de rodovias no Cerrado.
Há ainda um problema de percepção. Como essas áreas ficam espremidas entre pista, pasto, lavoura e cidade, muitas vezes parecem pequenas demais para importar, quando na verdade a soma de milhares de quilômetros forma uma infraestrutura ecológica linear de grande escala.
Para medir o estado dessas áreas, os pesquisadores usaram imagens de satélite Sentinel-2 e ferramentas do Google Earth Engine referentes aos anos de 2017, 2020 e 2023. Com isso, classificaram o uso do solo em três grupos principais: vegetação nativa, rodovia e outros usos humanos, como agricultura, pastagem e solo exposto.
A classificação foi feita com um modelo computacional do tipo Random Forest, treinado com milhares de pontos de controle e complementado por informações de campo. Em termos simples, trata-se de um sistema que aprende a reconhecer padrões nas imagens para diferenciar áreas naturais e áreas transformadas.
Os autores também mediram trechos de estrada por sensoriamento remoto para definir uma largura média de vegetação nas bordas. Embora a legislação fale em 15 metros de recuo, a análise mostrou uma média de 27 metros de vegetação, e por isso o estudo adotou um buffer de 30 metros em cada lado da rodovia.
Esse detalhe importa porque mostra que a ciência não partiu de uma suposição arbitrária. Ela tentou se aproximar da realidade observada no território para estimar, com mais fidelidade, quanto dessas margens ainda guarda vegetação e quanto já foi perdido.
O estudo não trata as margens de rodovias no Cerrado como solução mágica para a crise ambiental do bioma. Mas ele mostra que ignorá-las é desperdiçar uma oportunidade concreta de conservação em uma paisagem já muito fragmentada.
Entre os caminhos propostos pelos autores está a adoção de planos integrados de manejo da vegetação dessas faixas. Isso incluiria fiscalização mais efetiva, prevenção de ocupações irregulares, envolvimento de proprietários vizinhos e definição de trechos prioritários para conservação e restauração.
Outra frente sugerida é identificar “hotspots” nas margens viárias capazes de conectar remanescentes de vegetação nativa. Em vez de tentar restaurar tudo de uma vez, a ideia seria concentrar esforços onde essas áreas podem funcionar como elos entre fragmentos, ampliando o ganho ecológico com recursos limitados.
Os autores também mencionam instrumentos econômicos, como pagamento por serviços ecossistêmicos e mecanismos associados a redução de emissões por desmatamento e degradação. Em um bioma pressionado como o Cerrado, criar valor institucional para essas faixas pode ser decisivo para evitar novas perdas.
No fundo, a mensagem do artigo é simples e poderosa. A beira da estrada, vista depressa pela janela do carro, pode parecer banal — mas, no Cerrado, ela ainda guarda biodiversidade, carbono e possibilidades reais de recuperação.
O Cerrado fornece serviços ecossistêmicos essenciais, influencia regimes hídricos, sustenta atividades produtivas e abriga uma biodiversidade única. Preservar esse bioma exige grandes políticas públicas, mas também depende de olhar com atenção para áreas que normalmente ficam fora do radar da conservação tradicional.
As margens de rodovias no Cerrado entram exatamente nessa categoria. Elas são lineares, dispersas, juridicamente sensíveis, ecologicamente úteis e relativamente acessíveis para ações de gestão, o que faz delas um alvo estratégico para políticas ambientais inteligentes.
Para quem trabalha com planejamento territorial, infraestrutura, restauração ecológica ou políticas climáticas, o recado é claro. Estrada não é só engenharia de transporte; é também território, paisagem e disputa sobre o futuro ambiental das regiões que atravessa.
Quando essas bordas são degradadas, o prejuízo se espalha silenciosamente. Quando são protegidas e bem manejadas, elas podem se tornar uma rede discreta, mas poderosa, de conservação ao longo de milhares de quilômetros.
Heraldo L. Vasconcelos
Vagner Santiago do Vale
Imma Oliveras Menor
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