credibilidade em relatórios de sustentabilidade

Credibilidade em relatórios de sustentabilidade: o que realmente pesa no mercado brasileiro

Uma empresa pode investir em meio ambiente, falar bonito sobre sustentabilidade e ainda assim não convencer o mercado. Já quando o discurso social parece claro, consistente e confiável, a reação tende a ser diferente — e esse é justamente o ponto central do estudo com empresas brasileiras de setores potencialmente poluidores analisado aqui.

A pesquisa publicada na Social Sciences & Humanities Open investigou 34 companhias listadas na B3 que divulgaram relatórios de sustentabilidade de forma consecutiva, buscando entender como a credibilidade desses documentos afeta o desempenho de mercado. O resultado mais interessante é quase contraintuitivo: no curto prazo, a credibilidade dos relatórios ambientais apareceu associada a pior relação com o desempenho de mercado, enquanto a credibilidade dos relatórios sociais mostrou efeito positivo.

Quando sustentabilidade não basta

Durante muito tempo, bastava olhar lucro, receita e valor das ações. Hoje, investidores, consumidores e governos também querem saber como uma empresa trata trabalhadores, comunidades, resíduos, emissões e recursos naturais.

Nesse cenário, os relatórios de sustentabilidade viraram uma espécie de vitrine corporativa. Eles prometem mostrar o que a empresa faz de bom para a sociedade e para o meio ambiente, mas a pesquisa parte de uma pergunta decisiva: o mercado acredita no que está sendo dito?

Essa pergunta importa especialmente no Brasil. O país reúne enorme biodiversidade, forte pressão sobre recursos naturais e setores econômicos com alto potencial de impacto ambiental. Ao mesmo tempo, a divulgação de informações socioambientais ainda é irregular entre empresas listadas, e não existe uma exigência legal ampla e consolidada que obrigue todas elas a publicar relatórios padronizados de sustentabilidade.

É nesse vazio entre discurso e confiança que o estudo entra. Em vez de perguntar apenas se a empresa investe em ações ambientais e sociais, os autores quiseram saber se a forma como essas ações são comunicadas altera a percepção do mercado.

O que torna um relatório confiável

No debate público, credibilidade costuma parecer algo subjetivo: ou se acredita, ou não se acredita. No artigo, porém, ela é tratada como algo que pode ser observado em características concretas do texto e da divulgação.

Os autores se basearam na Teoria da Ação Comunicativa, de Jürgen Habermas, segundo a qual uma comunicação confiável depende de critérios como clareza, adequação, completude e confiabilidade. Em linguagem simples, isso significa que um relatório crível precisa ser compreensível, fazer sentido no contexto, cobrir os temas relevantes e demonstrar aderência a parâmetros reconhecidos.

Para medir isso, o estudo usou o software ALT, voltado à análise de legibilidade de textos em português, além de uma verificação manual da aderência às diretrizes GRI, um dos referenciais internacionais mais usados em relatórios de sustentabilidade. Assim, a credibilidade não foi medida por opinião, mas por indicadores objetivos ligados à qualidade da comunicação escrita.

Na prática, os pesquisadores observaram quatro dimensões:

  • Entendibilidade, ligada à facilidade de leitura do texto.

  • Adequação, relacionada ao uso apropriado da linguagem e do conteúdo.

  • Completude, medida pela presença de palavras-chave e temas esperados nas diretrizes.

  • Confiabilidade, estimada pelo grau de atendimento às orientações da GRI.

Esse ponto é importante porque desloca o debate. O estudo sugere que não basta “ter ação sustentável”; é preciso comunicar essas ações de forma inteligível e verificável.

Como a pesquisa foi feita

A amostra partiu de 434 empresas do mercado de capitais brasileiro no período analisado. Dentre elas, 118 atuavam em atividades potencialmente poluidoras supervisionadas por órgãos reguladores, mas apenas 34 divulgaram relatórios de sustentabilidade de forma consecutiva e, por isso, entraram de fato no estudo.

Os dados cobriram relatórios socioambientais de 2014 a 2018 e desempenho de mercado entre 2015 e 2019. Para medir desempenho de mercado, os autores usaram indicadores como lucro por ação e relação entre valor de mercado e valor contábil.

Já o desempenho ambiental e social foi estimado a partir de investimentos reportados segundo as diretrizes GRI. No campo ambiental, entraram gastos com biodiversidade, tratamento de emissões e resíduos, eficiência no uso de água e energia, licenças, certificações e monitoramento. No campo social, entraram ações voltadas ao público interno, como treinamento e segurança, e ao público externo, como apoio a educação, saúde, esporte, combate à fome e doações.

Depois, os pesquisadores organizaram as empresas em níveis de credibilidade — baixa, média e alta — e aplicaram modelagem linear hierárquica para testar como a credibilidade mudava a relação entre desempenho socioambiental e desempenho de mercado. Em outras palavras, não se analisou apenas “quem investe mais”, mas “como o mercado reage quando esses investimentos são comunicados com mais ou menos credibilidade”.

O resultado que chama atenção

O achado mais forte do estudo está no contraste entre o social e o ambiental. A hipótese de que relatórios ambientais mais críveis melhorariam a relação entre desempenho ambiental e desempenho de mercado não se confirmou. Em todos os níveis analisados, a relação encontrada foi negativa no curto prazo.

Isso significa que, no recorte temporal estudado, maiores investimentos ambientais estiveram associados a pior desempenho de mercado, mesmo quando o relatório ambiental era considerado mais crível. Os autores interpretam esse resultado como um possível efeito de curto prazo: gastos ambientais podem pressionar resultados financeiros imediatos, enquanto benefícios econômicos e reputacionais tendem a aparecer mais adiante.

O próprio artigo destaca que esse tipo de investimento pode funcionar como vantagem competitiva no longo prazo, mas sobrecarregar indicadores no presente. Também lembra que análises curtas dificultam a reação plena dos stakeholders às informações divulgadas.

Já no caso social, o panorama foi outro. Quando a credibilidade dos relatórios sociais era baixa ou média, a relação entre desempenho social e desempenho de mercado seguia negativa. Mas, no nível alto de credibilidade, essa relação se tornou positiva.

Em termos mais diretos: investir em ações sociais e comunicar isso com clareza, consistência e aderência a padrões reconhecidos parece gerar uma resposta melhor do mercado brasileiro. O estudo conclui, portanto, que a segunda hipótese não foi rejeitada: a credibilidade dos relatórios sociais influencia positivamente a relação entre desempenho social e desempenho de mercado.

Por que o ambiental teve efeito negativo

À primeira vista, esse resultado parece estranho. Se o mercado valoriza sustentabilidade, por que a credibilidade ambiental não trouxe ganho no curto prazo? O artigo sugere algumas explicações que ajudam a entender o contexto brasileiro.

A primeira é temporal. Investimentos ambientais costumam exigir desembolso imediato e retorno mais lento. Instalar sistemas de controle, melhorar processos, tratar efluentes, reduzir emissões ou adequar operações custa caro e pode comprimir lucros antes que o mercado reconheça os benefícios futuros.

A segunda é institucional. Como a divulgação de relatórios de sustentabilidade no Brasil ainda é majoritariamente voluntária, muitas empresas reportam pouco, reportam de forma desigual ou deixam de divulgar parte de suas ações. Isso reduz comparabilidade, enfraquece a confiança e dificulta o uso dessas informações por investidores.

A terceira é cultural e histórica. O estudo argumenta que investidores brasileiros ainda não incorporaram de forma robusta critérios ambientais às suas decisões. Em um ambiente em que o foco segue muito concentrado em resultado financeiro de curto prazo, despesas ambientais podem ser vistas mais como custo do que como ativo estratégico.

Além disso, o país convive com exemplos traumáticos que afetam a percepção pública sobre responsabilidade ambiental corporativa. O artigo cita os desastres de Mariana e Brumadinho como eventos que expuseram a distância entre discurso empresarial e consequências reais, especialmente em setores intensivos em impacto.

Isso ajuda a entender um ponto crucial: um relatório ambiental mais crível pode até tornar a comunicação melhor, mas não resolve sozinho uma estrutura de incentivos de mercado que ainda reage de modo limitado à agenda ecológica.

Por que o social respondeu melhor

A resposta positiva aos relatórios sociais mais críveis sugere que o mercado brasileiro parece mais sensível, ao menos neste estudo, a iniciativas com efeitos visíveis sobre pessoas e comunidades. Isso inclui ações relacionadas a segurança no trabalho, treinamento, saúde, educação, apoio social e políticas voltadas ao entorno das operações empresariais.

Há uma razão prática para isso. Questões sociais costumam ter tradução mais imediata para reputação, clima organizacional, relação com comunidades e percepção pública. Quando uma empresa comunica bem essas iniciativas, o mercado pode enxergar menos risco reputacional e mais capacidade de manter relações estáveis com públicos estratégicos.

O artigo também aponta que o componente social produz forte efeito psicológico em audiências internas e externas. Em outras palavras, políticas sociais bem comunicadas podem ser percebidas mais rapidamente como sinal de organização, responsabilidade e vantagem competitiva.

Esse resultado não significa que o meio ambiente seja irrelevante. O que ele mostra é outra coisa: no Brasil analisado pelos autores, a linguagem da responsabilidade social parece ser mais prontamente absorvida pelo mercado do que a linguagem da responsabilidade ambiental.

O que isso muda na prática

Para empresas, o recado é claro: não basta publicar um PDF anual cheio de boas intenções. A qualidade da comunicação importa, e muito. Relatórios mais legíveis, completos e aderentes a padrões reconhecidos podem influenciar a forma como investidores interpretam o desempenho corporativo.

Para gestores, isso significa tratar relatório de sustentabilidade não como peça de marketing, mas como infraestrutura de confiança. A mensagem precisa ser clara, comparável e sustentada por evidências.

Para o mercado, o estudo acende um alerta sobre o curto-prazismo. Se investimentos ambientais seguem sendo penalizados ou pouco reconhecidos no curto prazo, há risco de se desestimular justamente o tipo de transformação empresarial mais necessário diante da crise climática.

Para formuladores de políticas públicas, a pesquisa reforça o argumento de que regras mais consistentes de divulgação podem melhorar transparência e comparabilidade. O próprio artigo observa que a ausência de obrigação legal ampla no Brasil reduziu a amostra do estudo, já que muitas empresas não publicam relatórios ou o fazem de maneira inconsistente.

O que os resultados revelam

A principal força do artigo está em mostrar que credibilidade não é detalhe estético. Ela funciona como ponte entre o que a empresa faz e o que o mercado entende.

Ao analisar empresas brasileiras de setores potencialmente poluidores, o estudo encontrou um país corporativo em transição. De um lado, a agenda socioambiental já está no discurso. De outro, o mercado ainda responde de forma desigual ao conteúdo desse discurso, premiando mais claramente a dimensão social do que a ambiental no curto prazo.

Isso não reduz a importância do meio ambiente. Pelo contrário: revela um desencontro entre a urgência ecológica e a lógica financeira dominante. Se o mercado demora a reconhecer valor em investimentos ambientais, relatórios críveis continuam sendo essenciais — não como garantia automática de recompensa imediata, mas como base para transparência, cobrança pública e amadurecimento institucional.

Em última instância, a pesquisa sugere que a disputa não é apenas por melhores práticas de sustentabilidade, mas por melhores formas de torná-las compreensíveis, verificáveis e socialmente confiáveis. E, no Brasil, isso ainda está longe de ser um detalhe técnico: é parte do próprio jogo entre empresas, sociedade e mercado.

Picture of Marco Polo Moreno de Souza

Marco Polo Moreno de Souza

(autor correspondente)

Demais Autores:

Gleice C. de L. Moreno

 

Marco P.M. de Souza

 

Nelson Hein

 

Biagio Fernando Giannetti 

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