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Você consegue produzir mais carne bovina e, ao mesmo tempo, emitir menos metano por quilo produzido? Um estudo feito em São Paulo com bovinos Nelore indica que sim — desde que a pecuária deixe para trás a lógica da pastagem degradada e aposte em manejo, adubação e eficiência.
A pecuária brasileira costuma entrar no debate climático como vilã por causa do metano entérico, o gás liberado na digestão dos ruminantes. Mas o novo estudo mostra que olhar apenas para “quanto o boi emite” pode esconder a pergunta mais importante: quanto ele produz em troca dessa emissão.
Os pesquisadores analisaram cinco sistemas tropicais de produção a pasto com novilhos Nelore, ao longo de dois anos, em São Carlos, no interior paulista. A comparação incluiu desde pastagem degradada sem adubação até modelos intensificados com diferentes doses de nitrogênio, manejo rotacionado, irrigação e até um sistema silvipastoril com árvores nativas.
Na prática, o trabalho avaliou um ponto crucial para o futuro da pecuária: se a intensificação de pastagens consegue melhorar a carcaça e a qualidade da carne sem piorar o impacto ambiental — e, idealmente, fazendo o contrário. A resposta foi bastante clara: os sistemas intensificados apresentaram melhor desempenho produtivo e menor emissão de metano por unidade de carcaça.
O experimento acompanhou cinco cenários bem diferentes. Havia uma pastagem degradada sem calagem nem fertilização, um sistema silvipastoril com 200 kg de nitrogênio por hectare ao ano, duas pastagens adubadas de sequeiro com 200 e 400 kg de nitrogênio e um sistema irrigado, também intensificado, com 600 kg de nitrogênio por hectare ao ano e sobressemeadura na seca.
Todos os animais foram mantidos exclusivamente em pasto, com água e suplemento mineral-proteico à vontade. Ao final, os cientistas mediram peso de carcaça, área de olho de lombo, espessura de gordura, porções comestíveis, maciez da carne e intensidade de emissão de metano em diferentes formas de cálculo.
Esse desenho experimental permitiu comparar não apenas “quanto o animal cresce”, mas também a qualidade final do produto e a eficiência ambiental do sistema. Em vez de tratar produtividade e sustentabilidade como opostos, o estudo colocou as duas variáveis lado a lado.
Os resultados mais fortes apareceram na carcaça. O sistema irrigado intensificado (IP600) teve os melhores números em peso vivo final, ganho de peso vazio, peso de carcaça fria, porção comestível e vários cortes nobres, superando com folga os sistemas menos eficientes.
A diferença foi grande. O peso de carcaça fria, por exemplo, saiu de 101,7 kg na pastagem degradada e 107,8 kg no sistema silvipastoril para 141 kg no sistema adubado com 200 kg de nitrogênio, 136,6 kg no de 400 kg e 161,7 kg no sistema irrigado.
A porção comestível da carcaça seguiu a mesma lógica: 75,6 kg na área degradada, 81,1 kg no silvipastoril, 106,4 kg no RP200, 111,1 kg no RP400 e 128,2 kg no IP600. Em outras palavras, o manejo intensificado não gerou apenas animais mais pesados; ele transformou esse ganho em mais carne aproveitável.
Outro indicador importante foi a área de olho de lombo, usada como sinal de desenvolvimento muscular. Ela ficou em 67,1 cm² no sistema degradado e 69,1 cm² no silvipastoril, mas subiu para 86,2 cm² no RP200 e 85,6 cm² no sistema irrigado.
A cobertura de gordura também ajuda a contar essa história. A espessura de gordura subcutânea foi de apenas 1,4 mm e 1,5 mm nos sistemas DP0 e SP200, abaixo do patamar considerado desejável no próprio debate do artigo, enquanto os sistemas intensificados chegaram a 2,1 mm, 2,2 mm e 3,1 mm.
Isso importa porque carcaças mal acabadas tendem a sofrer mais com resfriamento rápido e podem resultar em carne menos macia. Em pecuária, não basta engordar; é preciso terminar bem o animal.
Quando o foco vai da carcaça para a qualidade da carne, o estudo traz uma mensagem mais equilibrada. Os sistemas intensificados melhoraram a força de cisalhamento — uma medida instrumental ligada à maciez — mas não transformaram a carne em um produto altamente macio nos padrões mais exigentes.
Ainda assim, houve avanço. Logo após o descongelamento, a força de cisalhamento foi de 97,0 N no sistema degradado e 98,1 N no silvipastoril, contra 91,4 N no RP200, 85,3 N no RP400 e 87,4 N no IP600. Depois de 14 dias de maturação, os números caíram para 69,4 N, 71,7 N, 65,0 N, 63,0 N e 62,5 N, respectivamente.
Os autores lembram que o Nelore, sobretudo macho não castrado, tende naturalmente a produzir carne mais firme que a de outros perfis animais. Por isso, a melhora observada com a intensificação é relevante, mas não apaga fatores genéticos e fisiológicos que também influenciam a maciez.
Nem todos os atributos mudaram. O pH da carne e as perdas por cocção não diferiram entre os tratamentos, enquanto a coloração apresentou mudança significativa apenas no parâmetro de amarelecimento, com valor mais alto no sistema irrigado.
Traduzindo para fora do laboratório: a intensificação de pastagens não é uma solução mágica para todos os aspectos sensoriais da carne, mas melhora indicadores importantes de acabamento e desempenho que afetam o valor do produto e o rendimento da cadeia.
Talvez o achado mais estratégico do estudo esteja aqui. Os sistemas mais intensivos até registraram maiores emissões anuais absolutas por animal em alguns casos, mas foram muito mais eficientes quando o cálculo considerou a quantidade de carcaça produzida.
Esse é um ponto essencial no debate climático. Não basta perguntar quanto cada boi emite por ano; é preciso perguntar quanto metano é emitido para gerar cada quilo de carne.
Na métrica de metano por quilo de carcaça final, a pastagem degradada ficou em 0,38 kg de CH4 por kg de carcaça, o sistema silvipastoril em 0,36, o RP200 em 0,30, o RP400 em 0,33 e o IP600 também em 0,30.
Quando os pesquisadores analisaram o indicador por ganho de carcaça por hectare, o contraste ficou ainda mais forte. Os valores foram 0,73 e 0,78 kg de CH4 por kg de carcaça por hectare nos sistemas DP0 e SP200, contra 0,22 no RP200, 0,16 no RP400 e 0,11 no IP600.
Em CO2 equivalente por quilo de carcaça, o sistema degradado chegou a 25,9 kg, o silvipastoril a 22,9 kg, o RP200 caiu para 15,0 kg, o RP400 para 13,2 kg e o irrigado para 11,5 kg.
A lógica por trás disso é simples e poderosa: animais em pastos de melhor qualidade crescem mais, chegam mais rápido ao ponto de abate e transformam melhor o alimento em produto. Assim, a emissão total é distribuída por uma quantidade maior de carne, reduzindo a intensidade climática do sistema.
Em tese, o sistema silvipastoril poderia parecer o mais promissor, já que combina pecuária e árvores. Mas, neste estudo, ele não entregou o desempenho esperado.
Os autores atribuem esse resultado à competição entre árvores e pastagem por luz, água e nutrientes, especialmente em períodos sazonais adversos, como a seca. Na prática, o sombreamento intenso comprometeu a produtividade e a qualidade da forragem, o que limitou o ganho dos animais e piorou a eficiência das emissões por unidade produzida.
Isso não significa que sistemas silvipastoris sejam inviáveis. O trabalho sugere algo mais importante: integrar árvores ao pasto exige desenho fino, ajuste de densidade, escolha adequada de espécies e manejo compatível com o ambiente local.
O próprio artigo ressalta que não mediu o balanço líquido de carbono do sistema, incluindo o sequestro no solo e nas árvores. Portanto, o desempenho mais fraco do SP200 nas métricas produtivas e de metano por carcaça não encerra o debate ambiental sobre esse tipo de integração.
Se há um sistema que saiu claramente mal na foto, foi o de pastagem degradada sem correção e sem adubação. Ele reuniu baixo ganho produtivo, menor rendimento de carcaça, pior acabamento e maior intensidade de emissão em várias métricas.
Esse resultado tem peso prático porque grande parte da pecuária brasileira ainda opera com baixa intensificação, pouco uso de fertilizantes e lotações modestas. O estudo conecta esse modelo à baixa eficiência zootécnica e a um custo ambiental maior por quilo de carne entregue.
Ou seja, a degradação do pasto não é apenas um problema agronômico. Ela afeta rentabilidade, qualidade do produto, uso da terra e desempenho climático da atividade.
Para o Brasil, isso desloca a discussão pública. Em vez de opor pecuária e sustentabilidade de forma genérica, o estudo sugere que a diferença decisiva está entre sistemas degradados e sistemas bem manejados.
A principal implicação do estudo é que produtividade e sustentabilidade podem caminhar juntas quando a intensificação é bem planejada. Fertilização, manejo rotacionado, recuperação do solo, irrigação onde fizer sentido e melhoria da oferta de forragem aparecem como ferramentas para produzir mais carne com menor emissão por unidade de produto.
Isso tem implicações econômicas e políticas. Como os sistemas intensificados geraram mais porção comestível e maior peso de carcaça, eles podem elevar o retorno por área e melhorar a eficiência industrial, embora os próprios autores ressaltem que estudos econômicos ainda são necessários para avaliar a viabilidade completa dessas estratégias.
Há também um recado direto para políticas públicas. O artigo afirma que a adoção mais ampla dessas tecnologias depende de avaliação ambiental e viabilidade econômica capazes de sustentar incentivos a práticas sustentáveis em sistemas pecuários tropicais.
Em um país onde abrir novas áreas continua sendo uma tensão permanente entre produção e conservação, a intensificação de pastagens aparece como uma rota para tirar mais resultado da terra já ocupada. Não é uma solução automática, nem uniforme para todos os contextos, mas é um caminho concreto para reduzir a distância entre a pecuária que o Brasil tem e a pecuária de baixo carbono que promete construir.
O estudo também deixa uma advertência importante: ele mediu intensidade de metano por unidade de produto, mas não calculou o balanço líquido total de carbono considerando solo, pastagem e árvores. Isso significa que a fotografia ambiental ainda não está completa.
Mesmo assim, a mensagem central permanece robusta. Em condições tropicais do Sudeste brasileiro, sistemas intensificados — especialmente RP200, RP400 e IP600 — entregaram melhor carcaça, melhor desempenho produtivo e menor emissão de metano por quilo de carne do que a pastagem degradada e o sistema silvipastoril testado.
Para quem pensa o futuro da pecuária, a lição é menos ideológica e mais operacional. O metano importa, claro, mas o manejo do pasto talvez importe tanto quanto — porque, no fim, é ele que define se a fazenda produz carne com eficiência ou apenas prolonga emissões sobre um sistema pouco produtivo.
(autor correspondente)
Gabriele Voltareli da Silva
ORCID
Mariana Nunes Vieira de Melo
Luiza Budasz de Andrade
Althieres José Furtado
Ester Costa Fabricio
Analisa Vasques Bertoloni
Annelise Aila Gomes Lobo
Flavio Perna Junior
Sérgio Raposo de Medeiros
Alexandre Berndt
Renata Tieko Nassu
André de Faria Pedroso
Patrícia Perondi Anchão de Oliveira
Angélica Simone Cravo Pereira
Paulo Henrique Mazza Rodrigues
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