mineração no Espinhaço
Foto: Glauco Umbelino from Diamantina, Brasil, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Mineração no Espinhaço: o que está em risco nas montanhas que abastecem milhões de brasileiros

E se a próxima corrida por minerais estratégicos estiver avançando justamente sobre uma das regiões mais valiosas do Brasil para a água, a biodiversidade e a estabilidade do solo? É isso que mostra um estudo recente sobre a Serra do Espinhaço: a expansão da mineração não ameaça apenas áreas pontuais de extração, mas pode atingir serviços ecossistêmicos essenciais e espécies já pressionadas pela perda de habitat.

A pesquisa analisou o avanço de projetos minerários sobre a Serra do Espinhaço, cadeia montanhosa que se estende por 1.369 km entre Minas Gerais e Bahia e funciona como uma espécie de infraestrutura natural do país. Além de concentrar campos rupestres extremamente diversos, a região ajuda a regular a água, reter sedimentos e armazenar carbono, ao mesmo tempo em que abriga centenas de espécies ameaçadas.

Publicada na revista Science of the Total Environment, a investigação foi conduzida por Kleber F. A. da Silva, Leila Meyer, Fernando M. Resende, Fernando A. O. Silveira e G. Wilson Fernandes. O artigo mapeou projetos minerários existentes e planejados, cruzando esses dados com indicadores de produção de água, controle de erosão, estoque de carbono e distribuição de plantas e vertebrados ameaçados.

Por que a Serra do Espinhaço importa tanto

A Serra do Espinhaço não é apenas uma sequência de montanhas no mapa. Ela atravessa três grandes biomas brasileiros — Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga — e reúne uma combinação rara de relevo, clima, solos e vegetação que favorece a existência de habitats únicos e alto endemismo.

Na prática, isso significa que a região presta funções ambientais que sustentam a vida muito além de seus limites. O estudo lembra que o Espinhaço fornece água para quase 50 milhões de pessoas e tem papel decisivo na segurança hídrica, na contenção da erosão e na conservação de espécies que não existem, ou quase não existem, em outros lugares.

Há também um fator histórico e econômico. A região é marcada pela mineração desde o período colonial, primeiro com ouro e diamante e, hoje, com ferro, quartzito, quartzito/quartzo, areia, granito e outros materiais relevantes para a construção civil e para a transição energética.

O tamanho da pressão minerária

Os números ajudam a dimensionar o problema. Os autores identificaram 3.668 projetos minerários incidindo sobre a Serra do Espinhaço, sendo 1.360 classificados como existentes e 2.308 como planejados.

Os projetos existentes ocupam 330.534 hectares, ou 2,34% de toda a área estudada. Já os planejados somam 553.022 hectares, equivalentes a 3,92%. Juntos, eles alcançam 6,26% da Serra do Espinhaço e 9,27% da área de campo rupestre considerada no estudo.

Pode parecer pouco à primeira vista. Mas o ponto central da pesquisa é outro: esses projetos não estão distribuídos aleatoriamente. Eles se sobrepõem de maneira desproporcional a áreas que concentram funções ambientais valiosas, como produção de água e retenção de sedimentos, e a áreas importantes para espécies ameaçadas.

Entre os projetos existentes, os minerais mais frequentes foram minério de ferro e areia, enquanto a maior área ocupada aparece em extrações ligadas a quartzo/quartzito, ouro e ferro. Nos projetos planejados, quartzo e quartzito aparecem com mais frequência, ao lado de áreas expressivas para ferro e granito.

Onde a mineração avança, a água pode sair perdendo

Um dos achados mais importantes do estudo está na relação entre mineração e água. As áreas visadas por projetos existentes produzem 2,97 vezes mais água do que seria esperado pela simples proporção de área ocupada. Nos projetos planejados, esse valor também é alto: 1,99 vez acima do esperado.

Em linguagem direta, isso quer dizer que a mineração no Espinhaço está mirando, em muitos casos, áreas especialmente importantes para a regulação hídrica. Não se trata apenas de perder vegetação em um ponto isolado, mas de alterar sistemas naturais que ajudam a manter o fluxo de água ao longo do ano.

Quando a cobertura nativa é removida e o solo é revolvido, aumenta o escoamento superficial e diminui a infiltração que alimenta lentamente córregos e rios. O resultado tende a ser conhecido de quem acompanha crises hídricas: mais água correndo rapidamente nas chuvas e menos disponibilidade na estiagem.

O estudo mostra ainda que a Mata Atlântica, embora ocupe apenas 17,3% da área do Espinhaço analisada, responde por 53,4% da produção total de água. Isso faz dessa porção uma área particularmente sensível à expansão minerária.

O Cerrado também aparece como peça-chave, não só por sua extensão, mas por sua função hidrológica em nascentes e grandes bacias. Já a Caatinga contribui com apenas 3% da produção total de água mapeada, mas ainda assim pode sofrer impactos locais importantes, sobretudo quando projetos atingem áreas críticas para retenção de sedimentos e biodiversidade.

Erosão, assoreamento e carbono: impactos menos visíveis, mas profundos

A água não é o único serviço ambiental sob pressão. O trabalho mostra que a retenção de sedimentos — uma medida ligada ao controle da erosão — também está concentrada em áreas ameaçadas. Nos projetos existentes, esse serviço aparece 1,65 vez acima do esperado pela área ocupada; nos planejados, 1,44 vez.

Na prática, a vegetação nativa funciona como uma malha de proteção do terreno. Ela ajuda a segurar partículas do solo, reduzir a força da enxurrada e evitar que córregos e rios recebam carga excessiva de sedimentos. Quando essa cobertura é substituída por cavas, pilhas de estéril, vias de acesso e outras estruturas associadas à mineração, o risco de erosão cresce.

Esse processo tem consequências em cadeia. Mais sedimento nos cursos d’água significa maior turbidez, assoreamento, degradação da qualidade da água e, em alguns contextos, transporte de contaminantes por longas distâncias.

O estoque de carbono apareceu no estudo com impacto proporcionalmente menor do que água e sedimentos, mas os próprios autores alertam que esse resultado provavelmente está subestimado. O mapeamento considerou carbono acima do solo e carbono orgânico do solo, mas não captou de forma completa grandes estoques subterrâneos, como raízes, fungos e turfeiras, que podem ser especialmente relevantes em ecossistemas abertos do Espinhaço.

Em outras palavras, o dano climático potencial da mineração pode ser maior do que o retratado no mapa. Isso é importante porque a perda de carbono não afeta só a área minerada: ela reduz a capacidade de o território contribuir para a regulação do clima.

Biodiversidade ameaçada em uma região já rara

Se a água ajuda a entender a importância prática do Espinhaço, a biodiversidade revela seu valor biológico extraordinário. O estudo identificou 563 espécies de plantas vasculares ameaçadas e 76 espécies de vertebrados terrestres ameaçados na região, totalizando 639 espécies sob algum nível de risco.

Só entre as plantas, isso representa 26,5% de todas as espécies vegetais ameaçadas do Brasil em uma fração muito pequena do território nacional. É um dado que ajuda a dimensionar o tamanho da responsabilidade ambiental concentrada nessas montanhas.

Os pesquisadores também verificaram que as áreas minerárias se sobrepõem de forma desproporcional à distribuição dessas espécies. Nos projetos existentes, a sobreposição média com plantas ameaçadas foi 2,93 vezes maior do que o esperado pela área ocupada. Para vertebrados ameaçados, foi 1,87 vez maior.

Nos projetos planejados, a sobreposição média ficou próxima do esperado em termos proporcionais para plantas e vertebrados, mas isso não significa ausência de risco. O próprio artigo destaca que limitações de amostragem podem esconder impactos maiores, sobretudo sobre espécies endêmicas, raras ou pouco registradas em bases públicas.

Um dos sinais mais fortes de vulnerabilidade aparece no dado sobre perda potencial de área de ocorrência. Trinta espécies ameaçadas — 20 plantas e 10 vertebrados — tinham mais de 30% de sua distribuição sobreposta a projetos de mineração e lavra.

Alguns casos são especialmente graves. Entre as espécies mais expostas em projetos existentes, o estudo cita L. horizontalis, com 93% da distribuição sobreposta, e C. odorata, com 76%. Nos projetos planejados, os morcegos Natalus macrourus e Furipterus horrens aparecem com 87% e 81% de sobreposição, respectivamente.

Para espécies de distribuição restrita, isso pode significar um risco desproporcional. Não é exagero dizer que, em certos casos, a decisão sobre onde abrir uma mina pode afetar a sobrevivência regional de organismos que já estão à beira do desaparecimento.

O mapa dos conflitos ambientais

A pesquisa mostra que os impactos variam conforme o bioma e a localização dos projetos. A porção sul da Serra do Espinhaço, especialmente na região do Quadrilátero Ferrífero, concentra forte pressão minerária e também grande número de registros de espécies ameaçadas.

Na Mata Atlântica inserida no Espinhaço, os projetos existentes se comportam de forma semelhante ao padrão geral: forte coincidência com áreas importantes para serviços ecossistêmicos e biodiversidade. No Cerrado, a água se destaca como o serviço mais sensível. Na Caatinga, os valores de impacto sobre serviços e biodiversidade também aparecem iguais ou acima do esperado em vários casos.

Essa leitura espacial é importante porque desmonta uma visão simplista de que todo projeto causa o mesmo tipo de efeito em qualquer lugar. Em regiões ecologicamente heterogêneas, a localização faz enorme diferença. Um hectare minerado em uma área comum não produz o mesmo custo ecológico que um hectare minerado sobre uma nascente, um campo rupestre raro ou uma área com alta concentração de espécies ameaçadas.

É exatamente por isso que os autores defendem o uso de análises espaciais e de serviços ecossistêmicos na fase de planejamento. Em vez de tratar o licenciamento como mera checagem burocrática, a ideia é incorporar inteligência territorial à decisão sobre onde minerar, onde não minerar e onde restaurar.

O que a pesquisa propõe na prática

O estudo não faz uma defesa simplista de “mineração zero”. O argumento central é que, como a atividade mineral é territorialmente restrita, ela precisa ser planejada com muito mais critério em regiões sensíveis como o Espinhaço.

Entre as medidas sugeridas, os autores destacam:

  • Priorizar, quando possível, áreas com menor provisão de serviços ecossistêmicos e menor concentração de espécies ameaçadas, como áreas já desvegetadas ou pastagens.

  • Proteger áreas de preservação permanente, reservas legais e zonas críticas para água, erosão e biodiversidade.

  • Expandir unidades de conservação com base em modelagem ecológica e evidências territoriais.

  • Cumprir e fortalecer a legislação ambiental para reduzir extração ilegal, desmatamento e conflitos socioambientais.

  • Investir em restauração ecológica de alta qualidade e monitoramento contínuo das áreas degradadas.

A mensagem é clara: não basta compensar depois. Em muitos casos, evitar a ocupação de áreas extremamente sensíveis é mais eficaz do que tentar restaurá-las no futuro.

O que os resultados revelam

Como toda pesquisa em larga escala, esta também tem limites. Os autores reconhecem que usaram as melhores bases disponíveis, mas parte dos dados climáticos e biofísicos tinha resolução mais grossa e precisou ser ajustada para a análise, o que reduz a capacidade de captar detalhes locais.

Há ainda uma limitação importante sobre biodiversidade. Muitas espécies ameaçadas do Espinhaço são pouco amostradas, e isso provavelmente faz o impacto parecer menor do que realmente é. Além disso, a infraestrutura associada à mineração — estradas, áreas de apoio, barragens, linhas de transmissão — não entrou plenamente nas estimativas, o que também subestima os efeitos acumulados.

Mesmo com essas cautelas, a direção do resultado é robusta: a mineração no Espinhaço avança sobre áreas desproporcionalmente importantes para produção de água, controle de erosão e conservação da biodiversidade. Em um momento de aumento da demanda por minerais, isso impõe ao Brasil uma escolha difícil, mas inevitável: tratar essas montanhas como simples fronteira de extração ou como patrimônio natural estratégico.

No fim, a principal contribuição do estudo talvez seja justamente essa mudança de escala. Ele mostra que discutir mineração não é falar apenas de cava, minério e licença. É discutir abastecimento de água, risco ecológico, planejamento territorial, resiliência climática e o futuro de uma das paisagens mais singulares do país.

Picture of Kleber F.A. da Silva

Kleber F.A. da Silva

Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais, Departamento de Biologia Geral, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, Brazil Laboratório de Ecologia Evolutiva & Biodiversidade, Departamento de Genética, Ecologia e Evolução, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brazil

Demais Autores:

Leila Meyer

 

Fernando M. Resende

 

Fernando A.O. Silveira

 

Wilson Fernandes

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